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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Homenagem a Virgem Maria


Oh, Santa Mãe, rezava Maria, então na catedral de Lisboa, meus próprios lençóis e acolchoados de seda zombam de mim! Fernando deitado na palha? Oh, Santa Mãe, tenha misericórdia! E ele nem mesmo está lá em Olivares. “Partiu de barco para Marrocos”, contou-nos o frade.

Marrocos.  Marrocos. Lá no olivedo, Maria tivera vontade de gritar como uma camponesa que fica sabendo que seu filho foi atingido por um arado. Se ao menos ela conseguisse desmaiar como um covarde ao ver seu próprio sangue! Ou golpear o chão com os punhos como um cavaleiro lançando ao solo em um torneio! Porém a esposa de um nobre da corte não se comporta assim, e por isso ela ficou sentada ereta em sua sela. O animal debaixo dela forcejava contra a rédea esticada, enquanto a comitiva retornava para Lisboa.

“Marrocos.” Maria sussurrou a palavra na catedral. A palavra soava como primeira nota de um canto fúnebre. Ela ousadamente levantou os olhos para o ícone. O rosto gentil da Virgem Santa estava inclinado para o lado direito. Os olhos escuros dela pareciam olhar compassivamente para dentro dos olhos de Maria.

Santa Mãe, suplicou Maria, os pagãos no Marrocos não crêem em seu Filho. Tampouco desejam ouvir falar a respeito dele. Aqueles que falam de Cristo no Marrocos morrem por sua bravura. Os cincos Santos mártires foram mortos no Marrocos. È isso que Fernando quer? Morrer por seu Filho, Santa Mãe? Não permita que seja assim, minha Mãe.

O olhar de Maria desviou-se para o Santo Infante, que estava parado na dobra do braço esquerdo de sua Mãe, com sua mão gordinha acariciando o rosto da Virgem.

Não foi suficiente, Santa Mãe, que seu próprio Filho tenha morrido? A morte era a missão de seu filho. Não é a de meu filho.

Santa Mãe, a senhora sabe como orei por esta criança. Como a entreguei à senhora no momento em que eu soube que ele estava crescendo debaixo do meu coração. A senhora aceitou minha dádiva. Cuidou para que ele nascesse na festa de sua Assunção, no dia 15 de agosto. Ele ainda não tem trinta anos, Mãe. Até mesmo seu Filho sobreviveu até os 33. Meu filho não pode ter ao menos tantos anos de vida ou alguns mais?

Maria estava chorando em silêncio, quando uma vaga lembrança retornou, subitamente forte, o dulcíssimo odor de uma escorregadia umidade recém-nascida. Com que ternura e avidez seu bebê procurara seu seio, com seus olhos negros fixos no rosto dela, enquanto sua boca sugava!



Poderia ela deixar essas lembranças nas areias do deserto? Essas e outras recordações. O pequeno Fernando percebia o que ninguém mais notava. A luz do sol batia nos terraços íngremes e muros de pedras de sua vizinhança. Os gritos agoniados das aves marinhas que voavam entre o rio Tejo e a praia de Lisboa. O bramido peculiar do mar e do vento nas noites de tempestade. O que ele perceberia no Marrocos senão o brilho do aço, afiado para matar, os gritos de pagãos sedentos de sangue?

Oh, minha Mãe, ele vale mais do que o sangue dele. Maria lembrava-se do filho, um menino gordinho vestindo uma túnica longa demais para suas perninhas roliças. As mangas apertavam seus braços. A gola baixa estava bordada com caracóis e laços dourados, tudo desenho e arte dela. Ela penteava-lhe o cabelo e mandava-o para a escola. Tão próxima da casa deles e, no entanto tão distante para um menino de apenas sete anos.

“Sua Santa Mãe estará com você quando eu não estiver”, havia-lhe dito ela.

“Ela é tão querida quanto você, não é, mãe?” perguntou ele.

“Mais querida ainda,” respondeu Maria, beijando-lhe a cabeça e mandando-o ir.

Texto extraído do livro ANTÔNIO: Palavras de fogo, vida de luz, Madeline Pecora Nugent – Paulinas, 2008 

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