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domingo, 26 de agosto de 2012

Conclusão


Trecho da CONCLUSÃO do Autor:

“Senti-me inicialmente muito longe dele, pela distância do tempo e do estatuto social. Como, mesmo com os privilégios do historiador, me aproximar de um rei e de um santo? Depois, através dos documentos e da análise de sua produção, eu o senti mais e mais próximo.  Não o vi em sonho, mas creio que poderia fazê-lo, como Joinville.  E foi o que mais e mais senti, essa atração, a fascinação da personagem.  Creio ter compreendido que muitos tenham tido vontade de vê-lo, de ouvi-lo, de tocá-lo.  Ao prestígio da função, que seus predecessores Capetos tinham cuidadosamente construído, somava-se sobretudo um carisma pessoal, o de um rei que não tinha necessidade de usar a coroa e as insígnias do poder para impressionar, o do rei, esse grande, magro e belo Luís, dos olhos de pomba, que frei Salimbene de Parma viu chegar descalço na poeira do caminho que levava a Sens.  Uma personagem impressionante para além de sua aparência, uma das ilustrações mais vigorosas da teoria weberiana do carisma, uma das mais notáveis encarnações de um tipo, de uma categoria do poder: vontade de realizar um tipo de príncipe ideal; o talento de ser ao mesmo tempo profundamente idealista e consideravelmente realista; a grandeza na vitória e na derrota; a encarnação de uma harmonia contraditória, na aparência, entre a política e a religião, um homem de guerra pacifista, um construtor do Estado, sempre a ponto de se inquietar com o comportamento de seus representantes; a fascinação da pobreza, sendo pessoa da maior condição; a paixão pela justiça, mesmo respeitando por completo uma ordem profundamente inigualitária; a união da vontade e da graça, da lógica e do acaso, sem os quais não há destino.

Do Livro: São Luís Biografia, pág. 788 – Jacques Le Goff, Tradução de Marcos de Castro, Editora Record, 1999.
O projeto do livro São Luís levou mais de dez anos, uma gestação lenta e cuidadosa a que poucas biografias têm direito.  A obra inventa um conceito, o de “biografia total”.  Para Le Goff, trata-se de articular três perspectivas: na primeira parte do livro, ele apresenta os resultados da sua tentativa de biografia, com os principais períodos da vida tal como Luís a construiu.  Na segunda, ele parte para o estudo crítico da produção da memória do rei pelos seus contemporâneos, e na terceira, finalmente, explora as principais perspectivas que fazem de Luís IX um rei ideal e único para o século XIII, um rei que recebe a auréola da santidade.


Jacques Le Goff (Toulon, 1 de janeiro de 1924) é um historiador francês especialista em Idade Média. Autor de dezenas de livros e trabalhos; membro da Escola dos Annales, se empregou na antropologia histórica do ocidente medieval.
Antigo estudante da École Normale Supérieure, estudou na Universidade Charle de Prague em 1947-48,professor de história em 1950 e membro da École Française de Rome, foi nomeado assistente da Faculté de Lille (1954-59) antes de ser nomeado pesquisador noCNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), em 1960. Em seguida, mestre-assistente da VI seção da École pratique des hautes études (1962) - sucedeu Fernand Braudel no comando da École des hautes études en sciences sociales, onde ele foi diretor dos estudos. Cedeu seu lugar a François Furet em 1967. Na qualidade de diretor de estudo na École des Hautes Études en Sciences Sociales, Jacques Le Goff publicou brilhantes estudos consagrados, que renovaram a pesquisa histórica, sobre mentalidade e sobre antropologia da Idade Média. Seus seminários exploraram os caminhos então novos da antropologia histórica. Ele publicou os artigos sobre as universidades medievais, o trabalho, o tempo, as maneiras, as imagens, as lendas etc. VIHS
Co-diretor da Escola dos Annales, dirigiu os estudos ligados à “Nova História” , como a coletânea Faire de l’histoire em 1977 e o volumoso Dictionnaire de la Nouvelle Histoire publicado no ano seguinte, levando à revolução dos Annales. Sinal do sucesso de suas teses, ele atuou no renovamento pedagógico de história participando da redação de um manual escolar.
Nos anos 1980 ele trabalhou em uma biografia de São Luís, publicada em 1996. Tudo em recordações das etapas essenciais do reinado de Luís IX, ele renovou o gênero biográfico pelos seus métodos e suas reflexões sobre a possibilidade de conhecer realmente um personagem da Idade Média.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Le_Goff

Imagem pertencente ao acervo do Convento de Santo Antônio do Largo da Carioca - Rio de Janeiro/RJ.



Ó Deus que transferistes São Luís dos cuidados de um reino terrestre à glória do Reino do Céu, concedei-nos, por sua intercessão, desempenhar nossas tarefas de cada dia, e trabalhar para a vinda do vosso Reino. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!

Patrono da OFS
Ordem Franciscana Secular
Festa: 25 de agosto

sábado, 25 de agosto de 2012

Os Milagres de São Luís


O estudo dos milagres de São Luís dá de sua santidade uma imagem muito mais tradicional.  São essencialmente milagres de cura, milagres do corpo.  Mas essa santidade, taumatúrgica, só se manifesta depois da morte do rei, conformando-se às prescrições de Inocêncio III, que reconhecia como válidos __ a fim de evitar os milagres ilusórios dos pseudoprofetas, dos falsos santos operando em vida __ só os milagres consumados depois da morte.  Luís ainda aqui se mostra um santo muito ortodoxo, um santo que obedece às prescrições da igreja.  É preciso ver esses milagres de perto.

Um santo cristão se define pela qualidade de sua vida e pelos milagres.  O exame dos milagres de São Luís relatados nos anos que precedem ou que se seguem à sua canonização e no momento da canonização deve esclarecer uma dupla questão: que importância tiveram os milagres na canonização de São Luís?                                                                                   
                                                                                                                      
                                                                                           
Qual foi o balanço entre sua vida e suas virtudes, de um lado, e suas ações milagrosas, de outro?  São Luís foi original em seus milagres?

Os sessenta e cinco milagres do corpus oficial permitem determinar os tempos, os lugares em que se produziram, as pessoas que deles se beneficiaram, a natureza desses milagres.

Primeiro fato essencial, portanto: todos os milagres de São Luís se deram depois de sua morte.  Os biógrafos chamam sempre a atenção para isso.  Geoffrov de Beaulieu já indicava que os milagres se seguiram ao sepultamento dos ossos em Saint-Denis: Sepultis igitur ossibus sacrosanctis divina non defueremagnalia; sed mox mirificavit Dominus sanctum suum [...].  Guillaume de Chartres, que compara o defunto rei ao sol, “um novo sol se levantou no Ocidente” (sol novus ortus in partibus Occidentis), afirma que “depois de se pôr”, quer dizer, depois da morte, ele “continuou a brilhar graças à luz de seus milagres” (post occasum etiam lucere non desinens miraculorum evidentium claritate).  E na bula de canonização de 11 de agosto de 1297, Bonifácio VIII afirma que o Cristo quis que depois da morte o santo rei “brilhasse pela multiplicidade de seus milagres como tinha resplendido(em vida) pelos incontáveis méritos”.
...

Com essa possível exceção, os milagres esperaram pela morte do rei.  Mas então se multiplicam.  Começam no caminho da volta dos restos mortais do rei de Túnis para Paris e Saint-Denis. Jean de Vignay assinala até, já o vimos, dois milagres havidos na Sicília durante o transporte do coração e das entranhas do rei reclamadas por seu irmão Carlos d’Anjou para seu mosteiro de Monreale.  A lista oficial assinala dois milagres registrados na passagem da ossada do rei pelo norte da Itália, em Parma e em Reggio nell’Emilia (milagres 64 e 65 de Guillaume de Sint-Pathus).  Outro milagre houve na entrada da ossada do rei em Paris (milagre 46).  A narrativa de Guillaume de Saint-Pathus é notavelmente viva:

Quando se anunciou em Paris, na primavera de 1271, a chegada do rei Felipe III trazendo os ossos de seu pai de Túnis, os burgueses de Paris iam adiante do cortejo, e, na vanguarda, os artesões de tecidos [mais de trezentos, segundo Guillaume de Saint-Pathus] que pretendiam se queixar ao novo rei de um erro que os prejudicara a propósito de uma determinação de local perto da Porta de Bauddroyer.  O grupo vai esperar o cortejo junto ao olmo de Bonnel [Bonneuil-sur-Marne] pra além de Cristreu [Créteil].  Lá encontram uma mulher que dizia ter vindo da Borgonha com o filho, um menino de cerca de 8 anos, mortificado por um tumor __ do tamanho de um ovo de gansa __ sob a orelha esquerda.  Numerosos santos dos santuários aos quais ela tinha ido em peregrinação (em particular o santuário de Saint-Éloi-de-Ferrière) e numerosos médicos se tinham revelado impotentes.  Quando o cortejo chega, a mulher pede aos que conduzem os dois cavalos que carregam a urna com os nossos de São Luís, a cuja passagem todos se ajoelham, que parem para que o menino possa tocar a urna com a parte doente de seu corpo.  Um dos condutores carregava suavemente o menino e faz com que toque a urna com aquela protuberância.  O inchaço logo arrebenta, muita”imundície”sai dele e corre sobre o peito e as roupas do menino que não mostra nenhum sinal de dor.  Todas as pessoas presentes gritam diante do milagre e louvam os méritos do abençoado São Luís.  Muitos choram de alegria.  Um bispo, que estava próximo, afirma que aquele não tinha sido o primeiro milagre feito por São Luís na viagem.

Mas é claro que o essencial se passa em Saint-Denis, junto do túmulo.
A evocação dos bandos de doentes, de inválidos, de estropiados, de mendigos se comprimindo em volta do túmulo, tocando-o, deitando por cima dele (porque ainda não se tinha esculpido a “imagem real”), é pungente. A menção da pedra que se raspa e da qual se engole o pó mostra que pouca coisa mudou nas crenças e práticas desde os tempos merovíngios, desde São Gregório de Tours.

Dos sessenta e quatro milagre listados por Guillaume de Saint-Pathus, cinquenta e três foram curas em Saint-Denis, cinco dos quais de doentes cujo estado impedia a ida a Saint-Denis e que prometeram ir à abadia se São Luís os curasse e cumpriram a promessa, em dois casos o milagre teve lugar em Chaalis e em Paris através do efeito de uma relíquia de São Luís (um manto e um chapéu que o rei tinha usado), uma criança morreu e foi ressuscitada (milagre 19) pela oferenda de uma vela diante do túmulo do rei; num outro caso, uma simples invocação a São Luís foi suficiente (milagre 52): fê-la um castelão de Aigues-Mortes, de volta de Saint-Denis, que por pouco não se afoga no Saona.  A esses é preciso juntar os dois milagres da Itália e o que se deu às portas de Paris.

Apesar da esmagadora localização dos milagres em Saint-Denis (mais de quatro quintos do total), a maioria dos biógrafos de São Luís indica que os milagres tiveram lugar em Saint-Denis ou alhures, sem dúvida para obedecer à tendência para a deslocalização dos milagres sensível no século XIII.

Quanto ao domicílio dos beneficiários dos milagres __ com exceção dos dois italianos (milagres 64 e 65), do castelão de Aigues-Mortes (milagres 61 e 62) e do menino vindo da Borgonha às portas de Paris para a chegada da ossada do rei (milagre 56), assim como o de um jovem roceiro do Jura que seguiu o cortejo fúnebre real desde Lyon (milagre 15) __ o domicílio, dizíamos, é Saint-Denis, Paris, Île-de-França, até os limites da Normandia e de Artois.

Todos os milagres, com exceção de um único (milagre 46, secagem de três celeiros parisienses), dizem respeito a pessoas curadas de deformidades ou de doenças ou salvas em perigo de morte.  Referem-se, em partes quase iguais, aos homens (vinte e três) e às mulheres (vinte).  Da mesma forma, entre vinte crianças e adolescentes, há onze do sexo masculino e nove do feminino.  Uma forte maioria dos beneficiários é de gente modesta ou pobre, cinquenta sobre sessenta e três, o resto se repartindo entre sete pessoas da Igreja (um cônego, dois padres, um monge cisterciense, duas irmãs da casa das Filles-Dieu de Paris e uma irmã conversa), três burgueses, cinco nobres (um castelão, três cavaleiros, uma damoiselle). Chama-se a atenção freqüentemente para o fato de que se trata de preferência de pessoas que trabalham com as mãos ou que estão mergulhadas na pobreza ou mesmo na mendicância.  Às vezes até se sublinha que a cura lhes permitiu escapar à indigência.

Fica bem clara aqui a função social do milagre: manter a esperança entre os mais desfavorecidos, ocupar o lugar daquilo que o seguro social e a loteria representariam hoje.  

Os milagres se referem quase todos, já foi dito, ao estado físico.
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Mas o que os biógrafos sublinham é que os milagres consumados pela intermediação de São Luís depois de sua morte foram não só grandes e numerosos, mas variados.  Na bula de canonização, Bonifácio VIII fala da diversitas miraculorum [“diversidade dos milagres”] do santo rei.  Assim como, em verdade, Luís IX vivo era dotado de um poder taumatúrgico estreitamente especializado, a cura de uma única doença, as escrófulas (adenite tuberculosa), do mesmo modo foi muito cedo reconhecido como um desses grandes santos cujo poder não se restringia a um tipo de milagre consumado em um santuário particular, mas se exercia sobre todos os males para os quais se podia solicitar sua intercessão junto a Deus.  Não se manifestou só no túmulo de Saint-Denis, mas também “alhures”.  A lista dos milagres conservados pela cúria romana é então um verdadeiro inventário dos milagres considerados “grandes” no fim do século XIII.
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Se bem que, de acordo com alguns historiadores, a proporção das “vítimas de contração” diminuiu entre os beneficiários de milagres do século XIII, se adicionarmos a esse item das vítimas de contração os arqueados ou curvados, os coxos, os que são chamados paralíticos (entre os quais parece haver muitos epiléticos __ a epilepsia é o mal Saint-Leu [doença de São Lobo] __ ou pessoas atacadas pela doença de Parkinson), em resumo, todos aqueles que têm problemas de locomoção, essa categoria se torna a mais importante entre os relacionados oficialmente na lista dos milagres de São Luís.  O modelo dos infelizes que ele curou parece ser aquele (ou aquela) que chega muito penosamente  a Saint-Denis com algum tipo de apoio, quer dizer, e muletas, porque perdeu o pé, uma perna, as coxas, e não poderia dispensar as muletas.  Cura espetacular, objetivamente contestável e que restitui a natureza e as potencialidades a um ser humano profundamente diminuído pela enfermidade e condenado a viver à custa de outrem, dos seus, de um hospital, de doadores de esmolas.  Agora ele poderá se locomover, ser ereto, ser independente, trabalhar.

Milagres da devolução da dignidade humana mais ainda do que da cura de um sofrimento.

Uma outra categoria importante tem seu peso: todos os que são curados de uma doença produtora de deformidade e de sujeira, de pus e de “imundice”: fístulas, apostemas (abcessos), gânglios, chagas  etc., todas essas doenças purulentas e fétidas, doenças que incham ou esburacam, cujas vítimas Piero Camporesi evocou magnificamente em bandos  trágicos na Itália dos séculos XVI e XVII. A ele também, o milagre devolve a integridade do corpo, senão a beleza; a limpeza, senão o brilho, um contato normal com os que o cercam.

Definitivamente, São Luís nada tem de excepcional em seus milagres.  Realizou aqueles que no fim do século XIII se esperavam de um grande santo, fosse de origem leiga ou eclesiástica, rei ou monge.  Através de seus milagres ele é, como se disse de um outro santo, seu sobrinho, São Luís d’Anjou, um santo como os outros. 

               São Luís Biografia Pág. 747 a 755 – Jacques Le Goff, Editora Record, 1999. 

Imagem pertencente a OFS - Fraternidade do Sagrado Coração de Petrópolis/RJ.  

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Um Santo Leigo


Imagem pertencente a Fraternidade da OFS
de Nossa Senhora Aparecida - Nilópolis/RJ. 

          Se se procurar agora definir a santidade de São Luís, é preciso não perder de vista que a originalidade mais fortemente sentida pelos contemporâneos é a de um santo leigo, categoria rara na Idade Média.  São Luís é um rei santo leigo posterior à reforma gregoriana, que distinguiu bem clérigos e leigos.  Por mais leigos que fossem, os santos reis dos séculos precedentes eram leigos misturados com a sacralidade sacerdotal.  Se um rei da França do século XIII conserva e até aumenta, acabamos de ver, um certo caráter sagrado __ reconhecido, não sem alguma reticência, pela Igreja e de qualquer maneira por aquilo que se pode chamar de opinião comum __, não é mais o rex sacerdos (“rei sacerdote”)  que os imperadores e, à imagem deles, os reis mais ou menos tinham tido, precedentemente.  Um Joinville, leigo ele próprio, chama bem a atenção para o caráter excepcional do santo leigo Luís.

            Esse santo manifesta seu laicismo especialmente em três domínios: a sexualidade, a guerra e a política.   

            A sexualidade define fundamentalmente desde a reforma gregoriana a separação entre clérigos e leigos.  Os hagiógrafos de São Luís, em particular os confessores, dão importância, em consequência, à perfeição de São Luís em matéria de sexualidade conjugal, aquela que exprime a própria condição dos leigos.  São Luís e a rainha Margarida (porque para a Igreja o casamento e a prática sexual dele decorrente fundamentam-se no consentimento mútuo de esposo e esposa) não apenas respeitam os períodos de proibição das relações sexuais normalmente lícitas __ as relações entre marido e mulher __, o “tempo de resguardo”, mas acrescentam tempos suplementares de continência.  Luís foi um paladino, um herói da sexualidade conjugal.  É um aspecto de sua santidade. 

             ...

            Luís é também um santo cavaleiro, um santo guerreiro.  Conheceríamos mal esse aspecto de sua personalidade e de sua vida se tivéssemos só as hagiografias de pessoas da Igreja.  Joinville é que deu valor a isso.  O rei aplica as duas grandes regras da guerra cristã, da guerra justa, da guerra lícita.  Diante dos Infiéis, é o modelo de guerra santa.  A pesar da recusa da Igreja oficial de fazê-lo um santo mártir, ele é um dos raros santos da cruzada.  Jean Richard e William Chester Jordan, que estudaram tão bem a fascinação que a cruzada exercia sobre São Luís, talvez não tenham visto tão bem o santo cruzado em Luís IX. Diante dos príncipes cristãos, a regra é não ser nunca o agressor e procurar a paz justa.  Ainda aqui, São Luís é um modelo.  É um pacificador, com o risco de ser condenado por fraqueza pelo seu pessoal mais próximo diante do rei de Aragão e sobretudo diante do rei da Inglaterra.  Mas ele também sabe ser um santo da paz, servindo de modo total os interesses da monarquia francesa, por exemplo, ao ligar, como ele próprio sublinhou, o rei da Inglaterra ao rei de França pela obrigação daquele de prestar-lhe homenagem.

            Em política, ele quis ser o rei cristão ideal.  Donde, para compreender sua santidade de um ponto de vista ideológico, a importância não só de seus Ensi-namentos, mas dos cinco Espelhos dos Príncipes redigidos no seu reinado a seu pedido, em sua intenção ou na de seus próximos, sobretudo o Eruditio regum et principum do franciscano Gilbert de Tournai (1259).   
            ...
            Na medida em que a santidade política do rei no governo do reino e a atitude do rei em relação aos seus súditos sofreu a influência dos Espelhos do Príncipe, a santidade de Luís traz a marca do renascimento do século XII, incluída aí a teoria orgânica da sociedade que faz do rei a cabeça de um corpus, de um corpo político.

            Quanto à grande opus politicum, o grande tratado político do qual Vincent de Beauvais só tinha redigido o De morali principis institutione e o De erdutione filiorum nobilium, devia definir a conduta do príncipe, de seus conselheiros, de seus oficiais no que concerne a “a honestidade da vida e a salvação da alma”.

            Estamos aqui, talvez mais ainda do que em outros Espelhos dos Príncipes, em um domínio comum ao rei ideal e ao rei santo no sentido do século XIII, se bem que Vincent de Beauvais se refira também aos autores carolíngios de Espelhos dos Príncipes, ao Policraticus de João de Salisbury e ao De constituendo rege (“Sobre a instituição real”) do cisterciense Hélinand de Froidmont, que ele inclui em sua Crônica (Chronicon, livro XI).  Vincent dá também Carlos Magno como exemplo ao rei e esse tratado se liga ao grande movimento capetiano do reditus ad stirpem Karoli, do qual vimos para importância para Filipe Augusto, Luís VIII e o próprio Luís IX.

            O tema pertinente aqui parece-me que é o do rex imago Trinitatis (o “rei imagem da Trindade”), variante do tema do rei “imagem de Deus” __ estrutura trifuncional diferente da trifuncionalidade indo-européia, mas não sem relações com ela.

            Vincent atribui ao rei uma virtude, virtus, que se manifesta por três atributos: o poder, a sabedoria e a bondade.  O “poder” (potentia) é considerado por Vincent segundo a teoria pessimista da origem do poder real como usurpação, na linha de Caim e de Nemrod, que é a tese de Jean de Meung no Roman de La Rose.  Mas ele o legitima graças à necessidade de reprimir o mal introduzido na sociedade pela “corrupção da natureza”, o pecado original.  Entretanto, o rei que usa de seu poder “retamente” pode e deve controlá-lo por um segundo atributo a “sabedoria” (sapientia), que evita a transformação de seu poder em tirania.  Essa sabedoria inclui o bom emprego da guerra, faz com que escolha bem seus amigos, seus conselheiros e seus oficiais, e o obriga a instruir-se nas letras sagradas e profanas.  Um terceiro atributo coroa essa Trindade da virtude real, a “bondade” (bonitas), porque o príncipe deve “ultrapassar em bondade todos aqueles que deve governar”.  Deve chegar a isso guardando-se da inveja, da lisonja e da adulação.  A bondade aproxima o “bom” rei da santidade.

            Em São Luís, o indivíduo e seus modelos ideais são historicamente um.  Estudar os modelos de sua santidade é então, já se viu, estudar o “verdadeiro” São Luís.

São Luís Biografia Pág. 742 a 745 – Jacques Le Goff, Editora Record, 1999.

O Rei Paciente


São Luís IX, rei de França - Patrono da OFS 
Ordem Franciscana Secular
Festa: 25 de agosto  


O que permite a São Luís converter seus sofrimentos em méritos é a paciência.  Enquanto foi prisioneiro dos sarracenos e sofreu terrivelmente com a “doença das hostes”, respondeu a esses sofrimentos com a paciência e a oração. O único de seu círculo doméstico que ficou com ele foi o cozinheiro Ysembart, que, por intermédio de Guillaume de Saint-Pathus, testemunha:

 Nunca se viu o abençoado rei irritado nem revoltado por causa de sua condição, nem murmurando contra nada; mas com toda a paciência e indulgência ele suportava e resistia a suas ditas doenças e a grande adversidade de sua gente, e estava sempre em oração.

Bonifácio VIII fala dessa paciência na bula de canonização, mas a palavra latina patiens (“que suporta com paciência”, mas também “ que sofre de”) é mais ambígua: “O rei que suporta com paciência [?] uma infecção intestinal e outras doenças”( eodem rege tunc  temporis fluxum ventris et aegritudines alias patiente).

Luís não se contenta em aceitar o sofrimento, ele o sublima:

Assim, como homem totalmente ancorado na fé, e inteiramente absorvido pelo espírito, mais estivesse esmagado pelos males da adversidade e da doença, mais fervor mostrava e mais se manifestava nele a perfeição da fé.

            Nos Ensinamentos, põe no mesmo plano a perseguição, a doença e o sofrimento.  Não recomenda ao filho e à filha apenas suportá-los pacientemente, mas que sejam reconhecidos quanto aos méritos que com isso adquirirão. Nesses textos, São Luís usa também uma expressão muito característica de sua concepção da vida afetiva: fala de “tormento do coração”, num paralelismo subentendido com “ tormento do corpo”, porque para ele, mais que a correspondência alma e corpo, espírito e corpo, essencial é a correspondência coração e corpo. Com a promoção do coração, é uma renovação de sensibilidade e de vocabulário que se esboça aqui.

            Finalmente, na única vez em que Luís fala do Purgatório em nossa documentação, é para dizer ao leproso de Royaumont que ele visita que sua doença é “seu purgatório neste mundo”.  São Luís, conservador nesse ponto, adere assim à velha doutrina (mas Santo Tomás de Aquino também não exclui essa possibilidade) de Gregório Magno, segundo a qual se pode sofrer “a pena purgatória” aqui na terra. Sobretudo, São Luís mostra aqui sua concepção fundamental da doença: é a ocasião de passar da purgação à purificação, do castigo-penitência à salvação, por um mérito que ainda se pode adquirir aqui, mas não no além.

Rei doente, rei paciente, rei transformando em mérito seu sofrimento físico, São Luís não é, no entanto, um rei “triste”.  Joinville bem nos diz que fora dos períodos _ a sexta-feira, por exemplo_ em que, por motivos religiosos, afasta os sinais exteriores de felicidade, o temperamento natural do rei é alegre: “Quando o rei estava com alegria.” Talvez nisso também haja um traço de espiritualidade franciscana.

 São Luís Biografia Pág. 768 a 770 – Jacques Le Goff, Editora Record, 1999. 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Excelsa Mãe de Deus

Assunzione (1999)Chiesa parrocchiale di Povolaro (VI) Silvano Vecchiato http://www.silvanovecchiato.com


Nós te pedimos, ó Senhora nossa, excelsa Mãe de Deus, exaltada acima dos coros dos Anjos, que enchas nossos corações com a graça celeste, que faças brilhar neles o ouro da sabedoria, que os firmes com a força de teu poder, que os ornamentes com as pedras preciosas das virtudes, que derrames sobre nós, ó oliveira bendita, o óleo de tua misericórdia, para encobrir a multidão de nossos pecados, para que mereçamos ser elevados à sublimidade da glória celeste e que nos tornemos felizes com os bem-aventurados pela graça de Jesus Cristo, teu Filho, que te exaltou acima dos coros dos Anjos, que te honrou com a coroa real e te colocou num trono de eterna luz, Amém.


(Prece própria para a festa da Assunção – Santo Antônio de Pádua – Devocionário Franciscano pág.361 Ed. Vozes)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Encerramento do Jubileu dos 800 anos da vocação de Santa Clara de Assis


No sábado dia 11 de agosto, encerrando as celebrações dos 800 anos da Vocação de Santa Clara de Assis, 16 irmãos e irmãs da nossa Fraternidade foram ao Mosteiro de Santa Clara em Nova Iguaçu celebrar o trânsito da Mãe Clara junto com nossas irmãs Clarissas Este é um momento de alegria para todos nós. Clara recebeu a morte não como inimiga indesejada, mas a abraçou como irmã, porta para a verdadeira vida.” www.franciscanos.org.br.



Participamos do Trânsito de Santa Clara e da Solene Celebração Eucarística com nossas irmãs Clarissas e com a Comunidade local e ao final da Celebração houve a bênção de Santa Clara e a veneração de uma autêntica Relíquia.










Após assistimos a uma encenação teatral de jovens, que com poucas palavras e pequenos gestos fizeram nossos corações transbordarem de alegria no despertar da vocação e da entrega total de Clara de Assis ao Cristo Pobre e Crucificado, no ano de 2012, quando toda a Família Franciscana ao redor do mundo inteiro comemora o Jubileu de seus Oitocentos anos.

 





Como de costume os pães foram abençoados pelo celebrante e distribuídos para todos os presentes.


 

Fomos recebidos com carinho e hospitalidade por nossas irmãs Clarissas que vivem em permanente oração por todos nós que estamos no mundo. 




Agradecemos a acolhida da Abadessa Madre Maria Conceição da Imaculada, osc e de todas as irmãs do Mosteiro.

Partilhamos um delicioso bolo com refrescos de vários sabores, estávamos em casa.





O dia 11 de agosto foi um lindo dia de sol no Rio de Janeiro e após pouco mais de uma hora de viagem, chegamos ao Mosteiro de Santa Clara no bairro Botafogo na cidade de Nova Iguaçu.



A acolhida da irmã Maria




  


Irmã Tereza entre uma vassourada e outra, somente parou para lembrar do local onde nasceu - A Ilha da Madeira - Portugal.   


Clara e Clarissa

  



Ao final do dia deixamos nossas irmãs e o Mosteiro envolto em sua paz, na certeza de um breve retorno no mês de outubro próximo, quando estaremos em nosso retiro anual.