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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Algumas palavras a quem tem medo da Irmã Dor e da Irmã Morte...


Nascente do Rio São Francisco

 Muitas vezes nos escandalizamos com as brutalidades sofridas pelas pessoas, através da violência gratuita das grandes cidades, das guerras absurdas e injustiças por todos os lados.     Outras vezes sofremos na pele os vieses da vida e, não muito raro, nos perguntamos o por quê deste sofrimento.      Qual mãe não desejou para si a enfermidade do filho, em troca de seu restabecimento?   Qual pai não pensou em sacrificar a própria vida pela segurança da família?   Qual filho já não pensou em se doar pelo pai ou mãe?  Qual pessoa não juntou as mãos e rezou com medo da dor dos seus?   É mais do que natural desejarmos vida e saúde aos nossos ascendentes e descendentes...

 No entanto, toda criança a partir dos 7 anos sabe o ciclo da vida de nascer, crescer, reproduzir e morrer.  Nós, desejosos de sermos Deuses, conseguimos alterar boa parte desse ciclo:  abortamos nascimentos, alteramos o crescimento, manipulamos a reprodução e retardamos a morte.  Nossa incapacidade de sermos Deuses, no entanto, nos empurra para a finitude e, na realidade, não fomos culturalmente preparados para aceita-la como fato normal da vida.    Temos medo da morte assim como de tudo que não conhecemos.   Nossa ignorância grita à nossa cabeça e, como tolos, nos fazemos perguntas:   Por que ele adoece?   É justo que uma criança fique cega?   Qual será o sentido de termos doenças, algumas tão doloridas?   Nunca teremos uma resposta e se preocupar com essa dúvida é inócuo.     Possivelmente possamos nos consolar em pensar que uma árvore também adoece, um peixe é pescado, uma ave é abatida por outra maior e as flores, tão belas, murcham e morrem.  A natureza é assim e não podemos acreditar num determinismo de Deus, com dia e hora certos para a doença ou para a morte.   Nosso sentido de tempo é uma criação humana e nosso calendário é recente.  Deus e a Natureza não sabem das horas.   A Natureza é assim e não podemos controla-la, como desejamos.

E por que sofremos?    Qual seria a razão do sofrimento?   Talvez façamos a interpretação errada dos fatos da vida.   Enxergamos com os olhos de quem viu a vida toda passar buscando prazeres, privilégios, não admitindo bem as perdas, mimados por uma vida boa, infantis e imaturos por termos sido paparicados pela sorte e pela vida.   Por acaso a agonia de um animal a morrer é diferente da nossa?   A cegueira de um mergulhão, que o impede de pescar e comer, é considerada quando ficamos lamentando as nossas dores?   Pensamos que são coitadinhos mas que a vida é assim e a morte tem que ter um meio de leva-los...  Com eles entendemos a brevidade da vida mas com os nossos não podemos admitir.  Morre o rico e morre o pobre, morre o novo e morre o velho, morre o justo e também o injusto.  Morre-se.

 Estaria aberto o supermercado da vida, para podermos escolher as nossas dores e a nossa morte?   Lógico que ninguém quer sentir dor mas a dor pode ser reinterpretada, caso apareça.  Pensar que a sua dor é infinitamente menor que a dor de milhões de pessoas.    Oferecer a sua dor como oferenda, pensar na dor que nos aproxima da vida real, lembrar que a dor é democrática e que todos sentem dor...   Sua dor é grande em ver um ente querido sobre uma cama de hospital?   Ótimo, pois é sinônimo do amor que tem por ele mas quantos têm uma cama de hospital?  Jesus, em sua agonia, de tão só, chegou a chamar pelo Pai, suspeitando de um abandono.  Quantos doentes têm alguém para o acompanhar num amplo quarto particular de um hospital muito bem equipado?    Quantas dores alucinantes o vizinho do quarto ao lado tem tido?   Veja o sofrimento do mundo e verá que a sua dor é talvez pequena.   Lembrem-se das crianças órfãs de Serra Leoa, mutiladas propositalmente e condenadas à grandes sofrimentos, das meninas vendidas sem dó, dos que definham sem remédios e comida, da vontade de adoção dos que estão em orfanatos, do choro do esquecido sob as marquises, dos que apodrecem ainda vivos....  Não teria tido o nosso ente querido uma vida digna até sua doença, trabalhando à sua maneira, criando filhos, rindo e chorando em momentos especiais...?   Temos o direito de exigir de Deus um sofrimento diferente dos que a Natureza nos imputa?   Estamos nos queixando a Deus e a sorte?  

 Quais serão os planos de Deus e como explicar o sofrimento?  Bobagem querer deduzir isso...  Deixemos os planos de Deus com Deus.  Não queiramos interferir tanto e querer ponderar o que acontece.   Sua reflexão é infrutífera e mesmo seus pedidos ao pé da Igreja deveriam ser ponderados:   temos o direito de pedir vida àquela idosa agonizante?  Saberíamos indicar a Deus a hora certa de leva-la?   Por acaso esquecemos do que rezamos no Pai Nosso:  Seja feita a Vossa vontade?   Ou seja feita a minha, a nossa, a sua vontade?  

 Como filhos de Deus temos que compreender que não temos capacidade para entender seus desígnios.   Como pais, muitas vezes negamos a nossos filhos um brinquedo perigoso, uma comida suspeita ou um passeio inseguro.   Os filhos, ‘que sabem tudo’, se rebelam, reclamam e “ficam de mal”.   Depois, com o tempo, acabam entendendo que aquela negativa era sinônimo de carinho, de preservação e farão as mesmas coisas quando se tornarem pais.    Em relação a Deus, nós também teimamos que nossos pais ou filhos não podem sofrer, e, absurdo, questionamos Deus.  Não admitimos que Deus e a Natureza possam agir à sua maneira mas sim de acordo com nossas vontades.   Somos infantis e mimados demais para refletir isso? 

 E como cuidar dos nossos doentes?   Cuidar como gostaríamos de ser cuidados.   A filha não deve temer entregar seu pai aos cuidados médicos, ainda que sinta aflição numa suposta idéia de abandono.  Por acaso a nova mãe, ainda que com nó no peito, não deve deixar seu filhinho numa incubadeira de hospital, caso ele precise, por quanto tempo for necessário?   Desejaria nosso pai que dedicássemos integralmente nossa juventude aos seus cuidados ou, em sua sã consciência, ele aceitaria uma ajuda externa?  Abandonar, jamais, mas deve-se ter bom senso em saber que alguma ajuda é necessária.   Deve-se também lembrar que ninguém é eterno e que a ordem natural da vida é que os mais velhos se separem de nós antes dos mais novos.  É a Natureza impondo seus limites.   Busquemos encarar isso como a vida, ainda que sintamos o nó no peito daquela mãezinha.  O nascimento e a morte são encontros solitários.
Para um feto, o nascimento natural é sua morte.  Ele tem a perder a proteção, o alimento, o calor, tudo que o sustenta e está a sua volta.  Provavelmente não desejaria sair e alguns, já em sofrimento, têm que ser arrancados do ventre da mãe, como muitos de nós somos arrancados deste mundo.  Ele perde tudo isso e, com nossas palavras, ‘morre’ como feto mas ganha outra vida, agora como criança.  Vida essa de outros tantos prazeres, de outros tantos carinhos e amores, sabores e cores.   Imagine-se passar pela vida sem sentir o amor dos pais, o amor pelos filhos, os prazeres da vida, a risada bem dada, o doce gostoso, o cheiro de algo na memória da infância, o perfume da avó, a história do avô, a brisa boa, o sol quente, a paisagem linda, a cama que nos nina.  Tudo isso só pôde ser sentido por quem, como feto, morreu.  Aí chega o momento da despedida dessa vida e, como os fetos, nos agarramos às nossas seguranças e não desejamos conhecer uma nova vida.   Deus estaria planejando para nós um tempo de amargura, de dor e de aflição ou ganharemos uma vida ainda melhor, de maior plenitude, impensável para nossas mentes limitadas? 

 Por que insistirmos em ficar aqui, nesta vida, e não admitir o fato natural de morrer?    Prolongamos o sofrimento de nossos doentes terminais sem admitir que Deus pode ter planos maiores e melhores, onde a dor sentida cessará e que o amor possa ser ainda maior. Lógico que a esperança de um dia de plena cura do nosso ente querido nos faz pedir pelo melhor remédio e isso é normal.    Não devemos, no entanto, temer a morte e questionar a Deus quando ela se aproxima.   São Francisco de Assis a chamava de irmã Morte e cantou a ela quando sentiu que se aproximava.   Acreditar na finitude absoluta, no término de tudo quando a morte chegar, seria admitir que o mundo não é bom e que tudo se dissipa como vento.    Admita-se como criatura e aceite que não temos maturidade e conhecimento para entender o sentido da vida.   Tente esquecer um pouco as perguntas porque as respostas não nos cabe conhecer, viva o que está aí para ser vivido, fale com sinceridade do amor que sente para os que estão conosco e tenha certeza que, ainda como falava São Francisco, a vida é curta e a morte é certa.   Tente, muito, aproveitar a vida, amar seus queridos, dizer e sentir isso perto deles, para que, no fim de sua vida, você perceba que, ainda sem entender o sentido da vida, viveu feliz.   É uma opção de vida, é educar o olhar para enxergar as coisas boas, é ter fé que a vida será, depois da morte, ainda melhor e que seu amor permanecerá no peito daqueles que lhe cruzaram a vida.  O amor fica, o amor é eterno e o amor se encontrará novamente, em algum lugar que não conseguimos pensar. Uma das poucas certezas que temos da vida é que podemos ser felizes, se quisermos.  Não tenham medo!  
Para verificar coincidências:  Mateus 14,27;  Marcos 16,6; Lucas 12,4   
Arnaldo Lyrio Barreto, OFS

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Maria Bethania no Canecao 053 Q seria de mim sem a fé em antonio.mpg

A alegria da Barraca da OFS, a famosa Barraca das Flores


Prezada Irmã Kátia,

 Paz e Bem!

Foi um belo gol que nossa aguerrida equipe marcou!

Mesmo marcada sob pressão pelos que não possuem um ideal de vida. [não falo nem em espiritualidade franciscana; passam batidos!];

Conseguimos a custa de muita luta e muita garra, alcançarmos o nosso objetivo; o de arrecadar uma bela quantia para a manutenção do Convento de Santo Antônio do Largo da Carioca.

Houve momentos em que ficamos frustrados sim, houve momentos em que ficamos decepcionados sim; tudo fruto do que víamos e sentíamos à nossa volta.

- Barraca sem telhado, à espera de um milagre que não acontecia.

- Irmãos e irmãs que a todo o momento comunicavam estar impedidos de colaborar na feitura dos arranjos para suprir a Barraca das Flores de farto material; impedidos por outros motivos de trabalhar nos 05 últimos dias da Festa, além de todas as dificuldades dos nossos irmãozinhos em trabalhar na Barraca das Flores, dói mais ainda a indiferença demonstrada por outros tantos. Responsáveis pela construção da barraca e alheios aos acontecimentos;

- Chuva, vento, poças d’água, pedestres apressados à frente de nossos carrinhos no trajeto para o transporte do material até ao convento.

Nada disso nos abateu!

Suamos nossas camisas, fomos dormir vários dias tarde da noite para não deixarmos a bola cair.

Minha querida Ministra, muitas vezes vi as lágrimas no seu rosto, o cansaço, a frustração, as dores nas pernas e joelhos, mas vi também como você reagia com denodo, nos incentivando, dizendo: vamos alcançar o nosso objetivo e nós correspondíamos, vamos chegar lá!

E chegamos, graças ao bom Deus, a nossa Mãe Maria e aos seus Anjos e Santos, em particular Santo Antônio e São Francisco, que tantas vezes citávamos nos dias e noites de trabalho, entremeadas com histórias alegres do cotidiano, porque como dizem os antigos, ninguém é de ferro!

Irmã Kátia, VALEU!!!!!!

Abraço mais do que Fraterno,

Newton, OFS (14/06/2012)



A Barraca das Flores existe a tantos anos que já se incorporou à história das Festas de nosso santo padroeiro no Convento do Largo da Carioca.
Nossa presença é humilde e de serviço, não estamos lá todos os anos para receber elogios dos Freis ou aparecer para quem quer que seja. 

É um dos poucos momentos do ano em que temos a oportunidade de estar presentes no Convento e contribuir com o nosso trabalho para o sustento do mesmo e de suas várias obras sociais junto aos pobres, o que muito nos alegra e nos faz vivenciar o carisma franciscano em sua forma mais concreta.
Irmãos, até 2013!

Kátia Sodré Lima Barros
Ministra - OFS - Fraternidade de Santo Antônio do Largo da Carioca

Na foto da esquerda em diante Isabel Salles, Newton, Marco Aurélio, Kátia, Arlete e Celeste.


Celeste responsável pela confecção dos mini lírios de papel vegetal e das flores de EVA.

  
Cartaz do Sermão de Santo Antônio aos Peixes
Frei Leonardo mostrou que há toda uma história por detrás do milagres dos peixes. Antônio quer levar a verdadeira fé. Prega ao povo que não quer escutá-lo. Vai à foz do rio junto ao mar. As águas se movimentam e os peixes vem ouvi-lo. O milagre é sempre a assinatura de Deus diante daquilo que acreditamos. Sempre quando há uma forte manifestação de Deus, depois vem um milagre.  Fr. Leonardo Aureliano, OFM

Agradecemos ao nosso Assistente Espiritual e Reitor do Convento de Santo Antônio Fr. Vitório Mazzuco Filho,OFM pela grande demonstração de carinho por nós seus irmãos da Ordem Franciscana Secular.  Sem seu apoio e dedicação a Barraca não teria acontecido! 
Na foto Fr. Vitório recebendo um dos oito “Bolírios” (cupcake com os lírios que enfeitaram o bolo do Centenário da Fraternidade, ocorrido no dia 08 de dezembro de 2012).




 Arlete e Nadyr exemplos de trabalho e vida franciscana, ambas na melhor idade em seus 84 e 83 anos.


Paulo e Mercedes casados há 52 anos, há vários anos fazem os lírios pintados a mão e acreditamos que sejam os mais bonitos da Festa.



A rifa do buquê de Santo Antônio foi um dos sucessos da Festa, na foto Rosa Maria a nossa Iniciante na OFS e agora noiva de Santo Antônio, com sua dama de honra Priscila, jovem Missionária que espontaneamente veio nos dar uma força!

Entre outros trabalhos, como a venda das flores, capelas, velas e demais lembranças confeccionadas pelos irmãos da Fraternidade, foram distribuídas para os fiéis que visitaram o Convento nos dias 12 e 13 de junho, mensagens vocacionais, centenas de revistas Paz e Bem e o texto do Fr. Celso, que colocamos em sua íntegra abaixo:
Santo Antônio e os pobres
Frei Celso Márcio Teixeira, OFM
Um costume antes muito difundido nas igrejas era o do "pão de Santo Antônio". Tratava-se de um cofre de esmolas colocado nas igrejas com a inscrição "pão de Santo Antônio". A coleta daquele cofre destinava-se única e exclusivamente aos pobres. Mais precisamente, com aquela arrecadação comprava-se o pão que semanalmente era distribuído aos pobres. Esse costume pode-se ainda perceber em algumas igrejas em que, todas as terças-feiras, são benzidos os pãezinhos - geralmente após a missa - e distribuídos aos fiéis.
Três são os episódios apontados como origem do "pão de Santo Antônio". O primeiro narra que Santo Antônio, certa vez, comovido com a situação dos pobres, distribuíra entre eles todo o pão do convento. O frade padeiro, na hora da refeição, desesperado por não ter um pão sequer para alimentar os confrades, veio a Antônio para contar-lhe que todo o pão tinha desaparecido. Antônio pediu-lhe que verificasse mais atentamente o cesto onde se colocavam os pães. Pouco depois, voltou o frade padeiro com a notícia de que o cesto estava transbordando de tanto pão. Daquele pão foram saciados os frades e todos os mendigos que vieram pedir-lhes esmolas.
Outro episódio conta que um menino caíra e se afogara num tanque cheio de água. A mãe, em prantos, recorreu a Santo Antônio, prometendo que, se o menino recuperasse a vida, ela tomaria uma quantidade de farinha de trigo, equivalente ao peso do menino, e faria pão para distribuir aos pobres. O milagre aconteceu, e a promessa foi cumprida. Por isso, o costume teria tido no início o nome de pondus pueri (peso do menino).
 Ainda outro episódio liga o "pão de Santo Antônio" a uma senhora de Toulon (França). Não conseguindo abrir a porta de seu estabelecimento, fez uma promessa a Santo Antônio que, se não fosse preciso arrombar a porta, daria certa quantidade de pão aos pobres. Conseguida a graça, cumpriu a promessa. Colocou ainda em seu estabelecimento uma imagem de Santo Antônio e um cofre com a inscrição "pão de Santo Antônio". Todas as esmolas que os fregueses ali depositavam eram usadas para comprar pão para os pobres.
 Mesmo que o costume do "pão de Santo Antônio" esteja hoje quase totalmente esquecido, fato é que o nome de Santo Antônio ainda continua de alguma forma ligado aos pobres, pois muitas obras de caridade, de promoção social e de educação trazem o nome do santo. E embora divirjam os episódios que são colocados como origem da tradição do "pão de Santo Antônio", a pergunta de fundo que se nos apresenta é esta: qual foi o relacionamento de Santo Antônio com os pobres? Por que Santo Antônio mereceu receber do teólogo franciscano João de la Rochelle o título de "doce consolador dos pobres"?
 Uma coisa é certa: no tempo de Santo Antônio, a pobreza era crescente. A passagem de uma sociedade feudal para uma sociedade burguesa trouxe muita pobreza, especialmente nas cidades. Enquanto a sociedade feudal se caracterizava pela posse, distribuição e uso da terra, tendo, portanto, seu centro de gravitação no campo, a burguesa caracterizava-se pelo comércio, pelo uso do dinheiro, pelo giro do capital, pelo trabalho assalariado, tendo como centro gravitacional as cidades.
 E a pobreza das cidades era mais aguda do que a pobreza do campo. No campo, onde se colhia o produto da terra, o pobre sempre encontrava meios de matar sua fome e de cobrir sua nudez contra o frio. Nas cidades, o pobre não tinha muitas vezes nem sequer como matar sua fome. A falta de trabalho, a exploração por parte dos que ofereciam trabalho, os baixos salários e os altos preços das mercadorias básicas para o sustento geravam pobreza extrema, fome negra, desnutrição e doenças inevitáveis. E a nova sociedade não estava preparada para socorrer as massas de pobres que ela mesma produzia. Além de leprosários e de hospitais para peregrinos e viajantes, não havia instituições caritativas que atenuassem a indigência dos pobres. Estes dependiam unicamente da caridade (esmola) das pessoas de boa vontade.
 Não consta que Santo Antônio se tenha dedicado a obras caritativas e de assistência aos pobres. O que certamente acontecia - que também se dava com Francisco e com os demais frades - é que os pobres que a ele recorriam eram acolhidos benignamente e recebiam alguma esmola.
Mas Santo Antônio, mais do que pelo fato de receber benignamente o pobre e de dar-lhe esmolas, merece o título de "doce consolador dos pobres" por ter atacado a raiz da pobreza e da miséria. Pelo que nós percebemos em seus sermões, dar-lhe-íamos antes o título de "estrênuo defensor dos pobres".
 Em seus sermões, de fato, Antônio não se cansa de atacar o egoísmo dos ricos, a exploração dos operários, a opressão e espoliação dos pobres por parte dos poderosos, as violências contra a vida deles. Menção especial merece o combate que Antônio trava do púlpito contra os usurários, espoliadores inescrupulosos dos pobres, agentes de sua própria riqueza e causadores da pobreza e da desgraça de muitos infelizes, concentradores de riquezas e geradores de miséria. A melhor defesa dos pobres, portanto, foi a crítica que Antônio fez a uma sociedade que privilegiava, com grandes riquezas, a alguns, e privava a inúmeras famílias do mínimo necessário para a própria sobrevivência. E a sua crítica não era dirigida à sociedade em si, mas às pessoas diretamente envolvidas, isto é, aos ricos, aos avarentos, aos poderosos, aos usurários e até ao clero. Para Antônio, a própria situação de riqueza de alguns constituía uma afronta aos pobres. Ao comentar, por exemplo, a parábola do rico e de Lázaro (Lc 16,19-31), assim ele se expressa: "O rico afligia a Lázaro, porque lhe roubava o benefício que lhe devia dar. Diz Isaías àqueles que não dão aos pobres o que lhes pertence: 'As rapinas feitas ao pobre encontram-se em vossa casa. Por que razão calcais aos pés o meu povo e moeis a pancadas os rostos dos pobres?(. .. )' A abundância do rico afrontava a miséria do pobre e lançava-lhe ao rosto; o rico exprobrava Lázaro coberto de chagas, quando passava vestido de púrpura diante de Lázaro, que estava em frente de suas portas" (l).
 Em outro sermão, comentando o texto bíblico "vi entre os despojos uma capa de escarlate muito boa" (Js 7,21), Antônio indica quem são as pessoas que tiram os poucos bens dos pobres: "A capa escarlate significa os haveres dos pobres adquiridos com muito suor e sangue... Os soldados e os burgueses avarentos e os usurários roubam a capa de escarlate... Os ricos e os poderosos deste mundo tiram aos pobres, a quem chamam de vilãos - sendo que eles próprios são os vilãos do diabo - os seus pobres haveres adquiridos com sangue, de que se vestem de qualquer maneira" (2).
 A terminologia de Antônio tornava-se agressiva, quando se tratava de defender os "pobres de Cristo", como ele costumava chamá-los. Usava comparações que certamente em nada agradavam aos usurários. Sua linguagem era muito próxima à dos grandes profetas bíblicos, como se pode perceber neste pequeno texto: "O povo amaldiçoado dos usurários tornou-se grande e forte sobre a terra. Seus dentes são como presas de leões. O leão tem duas características: a nuca inflexível formada de um único osso e a boca malcheirosa. Igualmente inflexível é a nuca do usurário, pois ele não teme nem a Deus nem aos homens; sua boca cheira muito mal, pois ele não tem outra coisa na boca, a não ser o imundo dinheiro e sua imunda usura. Seus dentes são como os dos leõezinhos, pois ele devora os bens dos pobres, dos órfãos e das viúvas" (3).
Ao defender os pobres, Antônio não recua diante dos prelados e poderosos. Não será o fato de uma pessoa estar constituída em dignidade eclesiástica ou civil que o fará calar no peito o seu clamor profético: "Não é sem grande dor que referimos atitudes de prelados da Igreja e de grandes varões deste século: fazem esperar muito tempo os pobres de Cristo que se demoram a clamar à sua porta e a pedir esmola, com voz embargada pelas lágrimas. Por fim, depois de terem comido bem e talvez, uma vez ou outra, inebriados, mandam dar-lhes alguns restos de sua mesa e as lavaduras da cozinha (4).
 Antônio era um homem cheio de compaixão pelos pobres. Ele sentia todo o drama da vida dos pobres de seu tempo. E percebia que a dramaticidade da vida do pobre eram as mãos gananciosas dos ricos e poderosos a tirar-lhe a vida. O seguinte texto mostra como é dramática a situação do pobre: "Quem segura uma pessoa pela goela, tira-lhe a voz e a vida. As posses do pobre são a vida dele; como a vida vive do sangue, assim ele deve viver disso. Se tiras ao pobre seus parcos haveres, sugas o sangue dele e o asfixias; e, no fim, serás tu mesmo asfixiado pelo demônio" (5).
 Como Francisco, Antônio também vê na pessoa do pobre o sacramental do próprio Cristo. E é exatamente esta compreensão do pobre que restitui a este a sua dignidade de pessoa humana, o que, aliás, vale muito mais do que qualquer quantidade de esmolas. A esmola, por sua vez, dada a partir desta concepção, reverterá em beneficio também do doador. Sobre isto, assim se expressa Antônio: "Agora, o Senhor está à porta, na pessoa dos seus pobres, e bate. Abre-se-lhe, quando se dá de comer ao pobre. A refeição do pobre é o descanso de Cristo. O que fizerdes a um dos meus irmãos mais pequeninos é a mim que o fareis... 'Deita a esmola no seio do pobre e ela (a esmola) pedirá por ti, para que os pecados te sejam perdoados, o teu espírito seja iluminado e a glória eterna te seja concedida" (6).
 E o martelo da palavra de Antônio bate forte contra aqueles que não vêem nos pobres a pessoa de Cristo: "Esta é a resposta do avarento dada aos pobres de Cristo. Nada lhes dá, blasfema e envergonha-os. Por isso, acontecerá o que segue: 'E o seu coração morreu interiormente e ele se tornou como uma pedra.' Tudo isto acontece ao avarento, quando se lhe subtrai a graça e é privado de entranhas de piedade (7).
A visão do pobre como sacramental de Cristo, ao mesmo tempo que provoca em Antônio indignação contra os avarentos e usurários, move-o de compaixão para com os defeitos dos pobres. E ele vê na pobreza, e não na riqueza, a medicina capaz de curar os defeitos das pessoas. Assim, ele diz em um de seus sermões: "Se acaso vemos coisas repreensíveis nos pobres, não devemos desprezá-los, porque talvez a medicina da pobreza cure os que a fraqueza do caráter vulnera" (8).
 O combate de Antônio a partir do púlpito teve efeito muito concreto. Não se sabe qual o conteúdo de suas pregações quaresmais na cidade de Pádua no ano de 1231. Mas ele deve ter batido muito e fortemente na tecla dos usurários. Resultado destas suas pregações foi uma lei, promulgada em Pádua, que dizia respeito à usura e às leis válidas para o empréstimo de dinheiro. As leis vigentes puniam os devedores e fiadores insolventes com a prisão perpétua, independentemente se a pessoa apenas estava impossibilitada de pagar ou se dolosamente se recusava a pagar suas dívidas. Com isto, os usurários, os magnatas do capital, apossavam-se dos bens do devedor e do fiador insolventes. Deste modo, o devedor, além de ser vítima do sistema iníquo da usura, era vítima de uma lei injusta.
 Aos 15 de março de 1231, o governo de Pádua promulgou uma lei nova nos seguintes termos: "A pedido do venerável irmão Antônio, confessor da Ordem dos Frades Menores, para o futuro, nenhum devedor ou fiador poderá ser privado pessoalmente de sua liberdade, quando ele se tornar insolvente. Somente suas posses poderão ser apreendidas neste caso, não porém sua pessoa e sua liberdade".
 Diz o provérbio: percam-se os anéis, salvem-se os dedos. Com esta lei promulgada por sua intercessão, Antônio conseguia pelo menos salvar a dignidade das vítimas da usura.
1. Sermão do I Domingo de Pentecostes.
2. Sermão do X Domingo de Pentecostes.
3. Sermão do Domingo da Sexagésima.
4. Sermão do Domingo da Ressurreição.
5. Sermão do XXII Domingo de Pentecostes.
6. Sermão do Domingo da Ressurreição.
7. Sermão do Domingo da Ressurreição.
8. Sermão do I Domingo de Pentecostes
Impresso por:

OFS – Ordem Franciscana Secular
Fraternidade de Santo Antônio do Largo da Carioca
Ø  Email : ofssantoantoniocarioca@gmail.com


Um milagre em nossa vida

Celebramos com muita simpatia a Santo Antonio no dia 13 de junho, ele é um dos santos franciscanos mais famosos e sua devoção é universal, em especial no Brasil, temos um carinho muito grande por ele. Destacaremos neste artigo a Mensagem de João Paulo II por ocasião dos 800 anos de nascimento de Santo Antônio.Vaticano, 12 de junho de 1994, no 16° ano de nosso Pontificado. “Para que esta esperança comum se realize, é necessário que todos os pastores e os fiéis redescubram, por uma devoção sincera, a pessoa de Santo António, estudem seu itinerário espiritual, saibam descobrir suas virtudes, escutem docilmente a mensagem que brota de sua vida.

Sua existência terrestre durou apenas 36 anos. Ele passou os primeiros catorze anos na escola episcopal de sua cidade. Aos quinze anos, ele decidiu entrar para os Cônegos Regulares de Santo Agostinho; aos 25 anos, ele foi ordenado sacerdote: dez anos de vida caracterizados por uma busca ardente e rigorosa de Deus, por um estudo intenso da Teologia, por um amadurecimento e progresso interior.

Mas Deus continuava a interrogar o espírito do jovem padre Fernando: este era o nome que ele tinha recebido na fonte batismal. No Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, ele conheceu um pequeno grupo de Franciscanos da primeira hora, que de Assis iam para Marrocos para lá testemunhar o Evangelho, mesmo que lhes custasse a vida. Nesta circunstância, o jovem Fernando experimentou uma nova aspiração: a de anunciar o Evangelho aos povos pagãos, sem deter-se diante do risco de doar a sua vida. No outono de 1220, ele deixou seu mosteiro e se colocou no seguimento do Pobrezinho de Assis, tomando o nome de Antônio. Ele partiu, então, para Marrocos, mas uma grave doença obrigou-o a renunciar a seu ideal missionário. Então, começou o último período de sua existência, ao longo do qual foi conduzido por Deus por caminhos que ele jamais tinha pensado em percorrer. Após tê-lo arrancado de seu solo natal e afastado de seus projetos de evangelização no além-mar, Deus o conduziu a viver o ideal da forma de vida evangélica em terra italiana. Santo António viveu a experiência franciscana apenas onze anos, mas ele assimilou o ideal a tal ponto que o Cristo e o Evangelho se tornaram para ele uma regra de vida encarnada no quotidiano. Ele disse num sermão: "Por ti nós deixamos tudo e nos fizemos pobres. Mas, porque és rico, nós te seguimos para que nos enriqueças... Nós te seguimos, como a criatura segue o Criador, como os filhos seguem o Pai, como as crianças seguem a mãe, como os famintos o pão, como os doentes o médico, como aqueles que estão fatigados a cama, como os exilados a pátria" (Sermones II, p. 484). Toda a sua pregação foi um anúncio contínuo e incansável do Evangelho "sine glossa". Um anúncio veraz, corajoso, límpido. A pregação era sua maneira de acender a fé nas almas, de purificá-las, de consolá-las, de iluminá-las (ibid. p. 154).

Ele construiu sua vida sobre o Cristo. As virtudes evangélicas, especialmente a pobreza em espírito, a mansidão, a humildade, a castidade, a misericórdia, a coragem da paz foram temas constantes de sua pregação. Seu testemunho foi tão luminoso que, em minha peregrinação ao seu santuário em Pádua, no dia 12 de setembro de 1982, eu quis apresentá-lo à Igreja, como já o havia feito o Papa Pio XII, com o apelativo de "homem evangélico". De fato, Santo Antônio ensinou de uma maneira eminente, fazendo do Cristo e do Evangelho uma referência constante da vida quotidiana e das opções morais, particulares e públicas, sugerindo a todos que alimentem nesta fonte a coragem de um anúncio coerente e atraente da mensagem da salvação. Precisamente porque estava cheio de amor pelo Cristo e pelo Evangelho, Santo António "ilustrava com espírito de amor a divina sabedoria que ele tinha tirado da leitura assídua das Sagradas Escrituras" (Pio XI, Carta Apost. "Antoniana sollemnia", 1.3.1941). A Sagrada Escritura era para ele a "terra parturiens" que faz nascer a fé, funda a moral e atrai a alma por sua doçura (cf. Sermones, Prólogo, 1,1). Recolhida numa meditação plena de amor pela Sagrada Escritura, a alma se abre - segundo sua expressão - "ad divinitatis arcanum". No curso de seu itinerário para Deus, António nutriu seu espírito neste segredo insondável, encontrando aí sua sabedoria e sua doutrina, sua força apostólica e sua esperança, seu zelo infatigável e sua ardente caridade. É da sede de Deus, do anseio por Cristo que nasce a Teologia; para Santo Antônio, ela era a irradiação de seu amor por Cristo: uma sabedoria de um valor inestimável e uma ciência de conhecimento intuitivo (cognição); um cântico novo "in aure Dei dulce resonans et animam innovans" (cf. Sermones, III, 55, e I, 225). Santo Antônio viveu uma maneira de estudar com uma paixão que o acompanhou ao longo de toda a sua vida franciscana. O próprio São Francisco o havia escolhido para ensinar "a santa Teologia aos irmãos", recomendando-lhe, no entanto, que cuidasse nesta tarefa, de não extinguir seu espírito de oração e de devoção (cf. Fontes Franciscanas, p. 75). Ele empregou todos os meios científicos, que então se conheciam, para aprofundar o conhecimento da verdade evangélica e tornar seu anúncio mais compreensível. O sucesso de sua pregação confirma o fato de que ele soube falar a linguagem de seus ouvintes, conseguindo transmitir de uma maneira eficaz o conteúdo da fé e fazendo com que a cultura popular de seu tempo acolhesse os valores do Evangelho.” http://www.capuchinhas.com.br/


 O cônego Fernando se torna Frei Antônio

Na antiga tradição dos religiosos, ao entrar para a vida Religiosa, mudava-se o nome para significar: nova identidade, nova família, nova escolha, nova missão, novo chamado. O jovem Fernando de Bulhões deixa o seu nome e escolhe outro: Antônio! Nome que se tornará conhecido e copiado no mundo todo! Frei Antônio tornar-se-á Santo Antônio! A nova escolha lhe trouxe santidade e fez de seu nome uma emoção e devoção. Por que o nome Antônio? Escolheu este nome em homenagem e imitação do santo padroeiro do convento franciscano de Coimbra que acolheu: o eremita Santo Antão. Antão, Antônio é derivativo de “Altitonante”, isto é, aquele que ressoa bem, que troveja lá no alto, que dá estrondo, que é retumbante, que soa alto, que se pode escutar com clareza, altissonante! Santo Antônio! Aquele que fez ressoar a Palavra de Deus com sabedoria, com profundidade, com clareza! Santo Antônio! A trombeta do Evangelho! Grande orador sacro, autor de grandes sermões que soube ser um bom pregador popular quanto um professor de teologia. Deus falou através dele!
Fr. Vitório Mazzuco Filho, OFM. carismafranciscano.blogspot.com