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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Por que vês o cisco no olho de teu irmão, e não vês a trave no teu? Mt 7,3.


Foto: Assis - Itália 2012

1.            VER: um dos grandes dons de Deus é o dom da visão.  A capacidade de captar as ores e os quadros que elas compõem, os movimentos, os vultos, as pessoas.  Não vemos apenas o palpável, o concreto.  Vemos também o invisível, o que se esconde sob as aparências.  E, aqui, Nosso Senhor nos chama atenção para uma das nossas capacidades: ver os defeitos dos outros, perceber os passos errados que eles dão, analisar os gestos e ações e ações que produzem, observar os deslizes que lhes acontecem, suas falhas de comportamento.  Temos grande facilidade em perceber as desarmonias no procedimento do irmão.  E não paramos ali: tecemos, em torno do episódio, considerações tais que aumentam tremendamente os fatos, carregam as cores, agravam as responsabilidades, quando não avançamos mais e penetramos no campo do comentário fantasioso e malicioso, transformando em palavras o que os nossos olhos mal viram, ou nem viram, aparentando certeza o que apenas era hipótese, incendiando a fantasia de nossos ouvintes e destruindo neles a imagem de nosso irmão.  Ver é um dom, mas é também um perigo.  Cabe ao proprietário fazer dele o uso segundo a vontade do Pai que o dotou de tão magnífica prerrogativa.
2.            CISCO: originariamente significa o pó de carvão, portanto algo de pequeno, insignificante, difícil de ser percebido a olho nu, que passa despercebido, que muito esforço para ser notado.  Nosso Senhor refere-se à capacidade d homem de perceber elementos insignificantes nas atitudes do próximo, manchas mínimas nas suas vestes, desproporções quase inexistentes em seus comportamentos.  Cisco coloca o acento na minusculidade da coisa ou do fato.  Nossa maldade se transforma em lente de aumento: um grãozinho de areia transforma-se numa rocha, uma formiga vira um elefante, uma semente ganha a forma de um celeiro, uma folha deita sombras como se fora um carvalho, uma palavra se torna um discurso, um gesto uma batalha.  Tudo o que de errado o outro faz, nosso campo visual o capta aumentando.  Parece que a descoberta de defeitos nos outros consola a existência de defeitos em nós e sua proporção exagerada esmaga o tamanho dos nossos.  Neste particular, Cristo nos analisou muito finamente: somos exímios catadores dos mínimos defeitos que empanam o brilho do olhar do próximo e, ao vê-los, geramos em nós a convicção de que são bem maiores do que na realidade.  Olho perigoso o nosso!
3.            TRAVE: viga de madeira, barrote, cada uma das barras que compõem a baliza do gol.  Algo, pois, realmente grande, perceptível, semelhante a um tronco de árvore, que pode ser visto com a maior facilidade, à distância, sem auxílio de instrumento algum.  A comparação de Cristo é clara: em nós existem defeitos grandes, falhas de proporções gigantescas, que prejudicam nosso desenvolvimento de homens e de cristãos.  Mas nosso olhar preocupado com captar defeitos alheios, embora pequenos, não se apercebe das grandes imperfeições que temos, entre elas, justamente, o vício de garimpar defeitos em terreno alheio  Na medida em que gasto minha capacidade de visão no cisco do olho fraterno, passa-me despercebida a trave que cobre todo o meu globo ocular.  Erroneamente acredito que vasculhar a propriedade alheia é menos comprometedor do que rastelar meu terreno eivado de ervas daninhas, que crescem em forma de floresta.  Gritamos alarmados que a casa do vizinho está pegando fogo, quando a nossa está praticamente devorada pelas chamas.  Lastimamos que o outro está descuidando do jardim, quando o nosso já virou deserto.  É estranho, mas doloroso: a imperfeição do outro grita mais forte que a nossa.  Somos atingidos pela sombra do outro, sem perceber a escuridão que deitamos em torno de nós.  Cristo nos adverte.  E toda advertência é uma graça.  Troquemos o foco de nosso olhar.  Dirijamos este olhar para outra direção.  Voltemo-lo para dentro de nós mesmos e teremos paisagens suficientes para entretê-lo.  Assim, corrigido o olhar na direção de nós mesmos, teremos um olhar na direção do outro.  Teremos estabelecido o equilíbrio.  E equilíbrio, neste particular, é caridade.
4             OLHO: os olhos, costuma-se dizer, são as janelas da alma.  Pela janela entra a luz e o ar.  Pelos olhos entra o mundo em nós.  Por isso, pede Cristo que nosso olho seja puro, como um filtro límpido, para que tudo quanto ele captar seja puro ou purificado e como tal instalado dentro de nós.  Mas... pela janela também saem o ar e a luz.  Pelo olho deixamos ver nossa alma.  Daí o significado do olhar: olhar franco, olhar inocente, olhar puro, olhar sincero, olhar tranquilo ou olhar perturbado, olhar dúbio, olhar assassino, olhar que se desvia.  A linguagem do olhar é um passo além da fala.  Ele traduz aquilo que a palavra não consegue expressar.  Lembremos o olhar de Cristo ensanguentado e machucado fixando-se em Pedro: nenhuma palavra teria realizado na alma do covarde apóstolo tamanha transformação.  Foi este olhar profundo que lhe mostrou a hediondez de sua situação.  Nenhuma recriminação teria desencadeado tantas lágrimas.  Aos pés da Cruz, Maria não falou, apenas olhou.  Palavra alguma, porém, teria infundido tamanha coragem no Filho, como aquele olhar dolorido, mas decidido.  Olhemos para o olho do irmão, à busca de uma alegria para nos encantar, de um encorajamento a nos animar.  De uma dor que possamos aliviar, de uma necessidade que possamos satisfazer.  À medida que deixarmos de procurar ciscos no olho do irmão, cairão as traves obnubilam o nosso.


Extraído do Livro: A Semente se fez árvore - Frei Hugo Baggio,OFM - Ed. Vozes - Petrópolis 1980









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