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sábado, 25 de agosto de 2012

Os Milagres de São Luís


O estudo dos milagres de São Luís dá de sua santidade uma imagem muito mais tradicional.  São essencialmente milagres de cura, milagres do corpo.  Mas essa santidade, taumatúrgica, só se manifesta depois da morte do rei, conformando-se às prescrições de Inocêncio III, que reconhecia como válidos __ a fim de evitar os milagres ilusórios dos pseudoprofetas, dos falsos santos operando em vida __ só os milagres consumados depois da morte.  Luís ainda aqui se mostra um santo muito ortodoxo, um santo que obedece às prescrições da igreja.  É preciso ver esses milagres de perto.

Um santo cristão se define pela qualidade de sua vida e pelos milagres.  O exame dos milagres de São Luís relatados nos anos que precedem ou que se seguem à sua canonização e no momento da canonização deve esclarecer uma dupla questão: que importância tiveram os milagres na canonização de São Luís?                                                                                   
                                                                                                                      
                                                                                           
Qual foi o balanço entre sua vida e suas virtudes, de um lado, e suas ações milagrosas, de outro?  São Luís foi original em seus milagres?

Os sessenta e cinco milagres do corpus oficial permitem determinar os tempos, os lugares em que se produziram, as pessoas que deles se beneficiaram, a natureza desses milagres.

Primeiro fato essencial, portanto: todos os milagres de São Luís se deram depois de sua morte.  Os biógrafos chamam sempre a atenção para isso.  Geoffrov de Beaulieu já indicava que os milagres se seguiram ao sepultamento dos ossos em Saint-Denis: Sepultis igitur ossibus sacrosanctis divina non defueremagnalia; sed mox mirificavit Dominus sanctum suum [...].  Guillaume de Chartres, que compara o defunto rei ao sol, “um novo sol se levantou no Ocidente” (sol novus ortus in partibus Occidentis), afirma que “depois de se pôr”, quer dizer, depois da morte, ele “continuou a brilhar graças à luz de seus milagres” (post occasum etiam lucere non desinens miraculorum evidentium claritate).  E na bula de canonização de 11 de agosto de 1297, Bonifácio VIII afirma que o Cristo quis que depois da morte o santo rei “brilhasse pela multiplicidade de seus milagres como tinha resplendido(em vida) pelos incontáveis méritos”.
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Com essa possível exceção, os milagres esperaram pela morte do rei.  Mas então se multiplicam.  Começam no caminho da volta dos restos mortais do rei de Túnis para Paris e Saint-Denis. Jean de Vignay assinala até, já o vimos, dois milagres havidos na Sicília durante o transporte do coração e das entranhas do rei reclamadas por seu irmão Carlos d’Anjou para seu mosteiro de Monreale.  A lista oficial assinala dois milagres registrados na passagem da ossada do rei pelo norte da Itália, em Parma e em Reggio nell’Emilia (milagres 64 e 65 de Guillaume de Sint-Pathus).  Outro milagre houve na entrada da ossada do rei em Paris (milagre 46).  A narrativa de Guillaume de Saint-Pathus é notavelmente viva:

Quando se anunciou em Paris, na primavera de 1271, a chegada do rei Felipe III trazendo os ossos de seu pai de Túnis, os burgueses de Paris iam adiante do cortejo, e, na vanguarda, os artesões de tecidos [mais de trezentos, segundo Guillaume de Saint-Pathus] que pretendiam se queixar ao novo rei de um erro que os prejudicara a propósito de uma determinação de local perto da Porta de Bauddroyer.  O grupo vai esperar o cortejo junto ao olmo de Bonnel [Bonneuil-sur-Marne] pra além de Cristreu [Créteil].  Lá encontram uma mulher que dizia ter vindo da Borgonha com o filho, um menino de cerca de 8 anos, mortificado por um tumor __ do tamanho de um ovo de gansa __ sob a orelha esquerda.  Numerosos santos dos santuários aos quais ela tinha ido em peregrinação (em particular o santuário de Saint-Éloi-de-Ferrière) e numerosos médicos se tinham revelado impotentes.  Quando o cortejo chega, a mulher pede aos que conduzem os dois cavalos que carregam a urna com os nossos de São Luís, a cuja passagem todos se ajoelham, que parem para que o menino possa tocar a urna com a parte doente de seu corpo.  Um dos condutores carregava suavemente o menino e faz com que toque a urna com aquela protuberância.  O inchaço logo arrebenta, muita”imundície”sai dele e corre sobre o peito e as roupas do menino que não mostra nenhum sinal de dor.  Todas as pessoas presentes gritam diante do milagre e louvam os méritos do abençoado São Luís.  Muitos choram de alegria.  Um bispo, que estava próximo, afirma que aquele não tinha sido o primeiro milagre feito por São Luís na viagem.

Mas é claro que o essencial se passa em Saint-Denis, junto do túmulo.
A evocação dos bandos de doentes, de inválidos, de estropiados, de mendigos se comprimindo em volta do túmulo, tocando-o, deitando por cima dele (porque ainda não se tinha esculpido a “imagem real”), é pungente. A menção da pedra que se raspa e da qual se engole o pó mostra que pouca coisa mudou nas crenças e práticas desde os tempos merovíngios, desde São Gregório de Tours.

Dos sessenta e quatro milagre listados por Guillaume de Saint-Pathus, cinquenta e três foram curas em Saint-Denis, cinco dos quais de doentes cujo estado impedia a ida a Saint-Denis e que prometeram ir à abadia se São Luís os curasse e cumpriram a promessa, em dois casos o milagre teve lugar em Chaalis e em Paris através do efeito de uma relíquia de São Luís (um manto e um chapéu que o rei tinha usado), uma criança morreu e foi ressuscitada (milagre 19) pela oferenda de uma vela diante do túmulo do rei; num outro caso, uma simples invocação a São Luís foi suficiente (milagre 52): fê-la um castelão de Aigues-Mortes, de volta de Saint-Denis, que por pouco não se afoga no Saona.  A esses é preciso juntar os dois milagres da Itália e o que se deu às portas de Paris.

Apesar da esmagadora localização dos milagres em Saint-Denis (mais de quatro quintos do total), a maioria dos biógrafos de São Luís indica que os milagres tiveram lugar em Saint-Denis ou alhures, sem dúvida para obedecer à tendência para a deslocalização dos milagres sensível no século XIII.

Quanto ao domicílio dos beneficiários dos milagres __ com exceção dos dois italianos (milagres 64 e 65), do castelão de Aigues-Mortes (milagres 61 e 62) e do menino vindo da Borgonha às portas de Paris para a chegada da ossada do rei (milagre 56), assim como o de um jovem roceiro do Jura que seguiu o cortejo fúnebre real desde Lyon (milagre 15) __ o domicílio, dizíamos, é Saint-Denis, Paris, Île-de-França, até os limites da Normandia e de Artois.

Todos os milagres, com exceção de um único (milagre 46, secagem de três celeiros parisienses), dizem respeito a pessoas curadas de deformidades ou de doenças ou salvas em perigo de morte.  Referem-se, em partes quase iguais, aos homens (vinte e três) e às mulheres (vinte).  Da mesma forma, entre vinte crianças e adolescentes, há onze do sexo masculino e nove do feminino.  Uma forte maioria dos beneficiários é de gente modesta ou pobre, cinquenta sobre sessenta e três, o resto se repartindo entre sete pessoas da Igreja (um cônego, dois padres, um monge cisterciense, duas irmãs da casa das Filles-Dieu de Paris e uma irmã conversa), três burgueses, cinco nobres (um castelão, três cavaleiros, uma damoiselle). Chama-se a atenção freqüentemente para o fato de que se trata de preferência de pessoas que trabalham com as mãos ou que estão mergulhadas na pobreza ou mesmo na mendicância.  Às vezes até se sublinha que a cura lhes permitiu escapar à indigência.

Fica bem clara aqui a função social do milagre: manter a esperança entre os mais desfavorecidos, ocupar o lugar daquilo que o seguro social e a loteria representariam hoje.  

Os milagres se referem quase todos, já foi dito, ao estado físico.
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Mas o que os biógrafos sublinham é que os milagres consumados pela intermediação de São Luís depois de sua morte foram não só grandes e numerosos, mas variados.  Na bula de canonização, Bonifácio VIII fala da diversitas miraculorum [“diversidade dos milagres”] do santo rei.  Assim como, em verdade, Luís IX vivo era dotado de um poder taumatúrgico estreitamente especializado, a cura de uma única doença, as escrófulas (adenite tuberculosa), do mesmo modo foi muito cedo reconhecido como um desses grandes santos cujo poder não se restringia a um tipo de milagre consumado em um santuário particular, mas se exercia sobre todos os males para os quais se podia solicitar sua intercessão junto a Deus.  Não se manifestou só no túmulo de Saint-Denis, mas também “alhures”.  A lista dos milagres conservados pela cúria romana é então um verdadeiro inventário dos milagres considerados “grandes” no fim do século XIII.
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Se bem que, de acordo com alguns historiadores, a proporção das “vítimas de contração” diminuiu entre os beneficiários de milagres do século XIII, se adicionarmos a esse item das vítimas de contração os arqueados ou curvados, os coxos, os que são chamados paralíticos (entre os quais parece haver muitos epiléticos __ a epilepsia é o mal Saint-Leu [doença de São Lobo] __ ou pessoas atacadas pela doença de Parkinson), em resumo, todos aqueles que têm problemas de locomoção, essa categoria se torna a mais importante entre os relacionados oficialmente na lista dos milagres de São Luís.  O modelo dos infelizes que ele curou parece ser aquele (ou aquela) que chega muito penosamente  a Saint-Denis com algum tipo de apoio, quer dizer, e muletas, porque perdeu o pé, uma perna, as coxas, e não poderia dispensar as muletas.  Cura espetacular, objetivamente contestável e que restitui a natureza e as potencialidades a um ser humano profundamente diminuído pela enfermidade e condenado a viver à custa de outrem, dos seus, de um hospital, de doadores de esmolas.  Agora ele poderá se locomover, ser ereto, ser independente, trabalhar.

Milagres da devolução da dignidade humana mais ainda do que da cura de um sofrimento.

Uma outra categoria importante tem seu peso: todos os que são curados de uma doença produtora de deformidade e de sujeira, de pus e de “imundice”: fístulas, apostemas (abcessos), gânglios, chagas  etc., todas essas doenças purulentas e fétidas, doenças que incham ou esburacam, cujas vítimas Piero Camporesi evocou magnificamente em bandos  trágicos na Itália dos séculos XVI e XVII. A ele também, o milagre devolve a integridade do corpo, senão a beleza; a limpeza, senão o brilho, um contato normal com os que o cercam.

Definitivamente, São Luís nada tem de excepcional em seus milagres.  Realizou aqueles que no fim do século XIII se esperavam de um grande santo, fosse de origem leiga ou eclesiástica, rei ou monge.  Através de seus milagres ele é, como se disse de um outro santo, seu sobrinho, São Luís d’Anjou, um santo como os outros. 

               São Luís Biografia Pág. 747 a 755 – Jacques Le Goff, Editora Record, 1999. 

Imagem pertencente a OFS - Fraternidade do Sagrado Coração de Petrópolis/RJ.  

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