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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Um Santo Leigo


Imagem pertencente a Fraternidade da OFS
de Nossa Senhora Aparecida - Nilópolis/RJ. 

          Se se procurar agora definir a santidade de São Luís, é preciso não perder de vista que a originalidade mais fortemente sentida pelos contemporâneos é a de um santo leigo, categoria rara na Idade Média.  São Luís é um rei santo leigo posterior à reforma gregoriana, que distinguiu bem clérigos e leigos.  Por mais leigos que fossem, os santos reis dos séculos precedentes eram leigos misturados com a sacralidade sacerdotal.  Se um rei da França do século XIII conserva e até aumenta, acabamos de ver, um certo caráter sagrado __ reconhecido, não sem alguma reticência, pela Igreja e de qualquer maneira por aquilo que se pode chamar de opinião comum __, não é mais o rex sacerdos (“rei sacerdote”)  que os imperadores e, à imagem deles, os reis mais ou menos tinham tido, precedentemente.  Um Joinville, leigo ele próprio, chama bem a atenção para o caráter excepcional do santo leigo Luís.

            Esse santo manifesta seu laicismo especialmente em três domínios: a sexualidade, a guerra e a política.   

            A sexualidade define fundamentalmente desde a reforma gregoriana a separação entre clérigos e leigos.  Os hagiógrafos de São Luís, em particular os confessores, dão importância, em consequência, à perfeição de São Luís em matéria de sexualidade conjugal, aquela que exprime a própria condição dos leigos.  São Luís e a rainha Margarida (porque para a Igreja o casamento e a prática sexual dele decorrente fundamentam-se no consentimento mútuo de esposo e esposa) não apenas respeitam os períodos de proibição das relações sexuais normalmente lícitas __ as relações entre marido e mulher __, o “tempo de resguardo”, mas acrescentam tempos suplementares de continência.  Luís foi um paladino, um herói da sexualidade conjugal.  É um aspecto de sua santidade. 

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            Luís é também um santo cavaleiro, um santo guerreiro.  Conheceríamos mal esse aspecto de sua personalidade e de sua vida se tivéssemos só as hagiografias de pessoas da Igreja.  Joinville é que deu valor a isso.  O rei aplica as duas grandes regras da guerra cristã, da guerra justa, da guerra lícita.  Diante dos Infiéis, é o modelo de guerra santa.  A pesar da recusa da Igreja oficial de fazê-lo um santo mártir, ele é um dos raros santos da cruzada.  Jean Richard e William Chester Jordan, que estudaram tão bem a fascinação que a cruzada exercia sobre São Luís, talvez não tenham visto tão bem o santo cruzado em Luís IX. Diante dos príncipes cristãos, a regra é não ser nunca o agressor e procurar a paz justa.  Ainda aqui, São Luís é um modelo.  É um pacificador, com o risco de ser condenado por fraqueza pelo seu pessoal mais próximo diante do rei de Aragão e sobretudo diante do rei da Inglaterra.  Mas ele também sabe ser um santo da paz, servindo de modo total os interesses da monarquia francesa, por exemplo, ao ligar, como ele próprio sublinhou, o rei da Inglaterra ao rei de França pela obrigação daquele de prestar-lhe homenagem.

            Em política, ele quis ser o rei cristão ideal.  Donde, para compreender sua santidade de um ponto de vista ideológico, a importância não só de seus Ensi-namentos, mas dos cinco Espelhos dos Príncipes redigidos no seu reinado a seu pedido, em sua intenção ou na de seus próximos, sobretudo o Eruditio regum et principum do franciscano Gilbert de Tournai (1259).   
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            Na medida em que a santidade política do rei no governo do reino e a atitude do rei em relação aos seus súditos sofreu a influência dos Espelhos do Príncipe, a santidade de Luís traz a marca do renascimento do século XII, incluída aí a teoria orgânica da sociedade que faz do rei a cabeça de um corpus, de um corpo político.

            Quanto à grande opus politicum, o grande tratado político do qual Vincent de Beauvais só tinha redigido o De morali principis institutione e o De erdutione filiorum nobilium, devia definir a conduta do príncipe, de seus conselheiros, de seus oficiais no que concerne a “a honestidade da vida e a salvação da alma”.

            Estamos aqui, talvez mais ainda do que em outros Espelhos dos Príncipes, em um domínio comum ao rei ideal e ao rei santo no sentido do século XIII, se bem que Vincent de Beauvais se refira também aos autores carolíngios de Espelhos dos Príncipes, ao Policraticus de João de Salisbury e ao De constituendo rege (“Sobre a instituição real”) do cisterciense Hélinand de Froidmont, que ele inclui em sua Crônica (Chronicon, livro XI).  Vincent dá também Carlos Magno como exemplo ao rei e esse tratado se liga ao grande movimento capetiano do reditus ad stirpem Karoli, do qual vimos para importância para Filipe Augusto, Luís VIII e o próprio Luís IX.

            O tema pertinente aqui parece-me que é o do rex imago Trinitatis (o “rei imagem da Trindade”), variante do tema do rei “imagem de Deus” __ estrutura trifuncional diferente da trifuncionalidade indo-européia, mas não sem relações com ela.

            Vincent atribui ao rei uma virtude, virtus, que se manifesta por três atributos: o poder, a sabedoria e a bondade.  O “poder” (potentia) é considerado por Vincent segundo a teoria pessimista da origem do poder real como usurpação, na linha de Caim e de Nemrod, que é a tese de Jean de Meung no Roman de La Rose.  Mas ele o legitima graças à necessidade de reprimir o mal introduzido na sociedade pela “corrupção da natureza”, o pecado original.  Entretanto, o rei que usa de seu poder “retamente” pode e deve controlá-lo por um segundo atributo a “sabedoria” (sapientia), que evita a transformação de seu poder em tirania.  Essa sabedoria inclui o bom emprego da guerra, faz com que escolha bem seus amigos, seus conselheiros e seus oficiais, e o obriga a instruir-se nas letras sagradas e profanas.  Um terceiro atributo coroa essa Trindade da virtude real, a “bondade” (bonitas), porque o príncipe deve “ultrapassar em bondade todos aqueles que deve governar”.  Deve chegar a isso guardando-se da inveja, da lisonja e da adulação.  A bondade aproxima o “bom” rei da santidade.

            Em São Luís, o indivíduo e seus modelos ideais são historicamente um.  Estudar os modelos de sua santidade é então, já se viu, estudar o “verdadeiro” São Luís.

São Luís Biografia Pág. 742 a 745 – Jacques Le Goff, Editora Record, 1999.

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