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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O saber para viver bem


O pensamento escotista está muito distante de ser um todo artificial de audaciosas sutilezas, como o acusaram os adversários ao contrário é eminentemente prático, enquanto busca conhecer e esclarecer o fim último do homem e de proporcionar-lhe os instrumentos aptos para consegui-lo.  Toda a sua especulação filosófico-teológica desemboca numa atitude existencial e de ordem prática: uma ética da ação.  Trata-se de uma moral do encontro e da existência comunicativa.

Scotus parte do princípio de que o amor divino transcendeu o infinito para vincular-se ao finito.  Em contrapartida, somente o amor humano da vontade livre poderá transcender o finito para unir-se ao infinito.  Trata-se, definitivamente, de uma ética do amor.  O Doutor Sutil pensou profundamente porque amou em profundidade, mas com um amor concreto, como ele mesmo diz: “Provou-se que o amor é verdadeiramente práxis”.  Desta práxis se compreende e se explica como o homem deve agir e viver no seu ser e estar no mundo e na sociedade.

É prático todo ato que provém do desejo da vontade, mas em condição de conformar-se à reta razão.  Isto explica claramente a conformidade da vontade a uma lei, dando-se assim uma identidade entre o prático e o normativo.  A vontade é uma potência indeterminada que se autodetermina por si mesma.  Sem dúvida a liberdade não é arbitrária nem irracional.  De fato, a vontade é o vértice do intelecto racional.  A liberdade se realiza na autodeterminação da vontade natural e racionalmente orientada ao bem.  A ação boa é aquela que corresponde a um ato da vontade conforme a reta razão.

A vontade escotista é capaz de determinar-se acima de qualquer interesse e de valorizar-se numa ética do desinteresse.  Scotus apresenta uma filosofia da liberdade dentro de uma teologia que admite a possibilidade natural de amar Deus por si mesmo e fora de qualquer interesse egoísta.
O Doutor Sutil nos oferece a esplêndida articulação de um humanismo cristão no qual o saber está a serviço do bem viver e do bom conviver, ou seja, de uma sociedade justa, pacífica e fraterna.

Fonte: Conferência dos Ministros Gerais da Primeira Ordem Franciscana e da TOR, por ocasião do encerramento do VII Centenário da morte do Beato Duns Scotus em 08 de novembro de 2008. www.franciscanos.org.br


QUEM FOI DUNS SCOTUS?

João Duns Scotus nasceu em Duns, na Escócia em 1265/1266. Em 1280 entrou na Ordem franciscana; estudou filosofia e teologia em Oxford, sendo ordenado sacerdote em 1291 em Northampton (Inglaterra). Entre os anos de 1291 e 1296, aprofundou seus estudos de teologia na Universidade de Paris. Retornando à Inglaterra, foi professor em Cambridge (1296-1300) e em Oxford (1300-1302). Foi chamado a Paris para ministrar aulas de teologia e ali permaneceu durante apenas dois anos (1302-1303), sendo obrigado a abandonar a universidade por não ter subscrito o apelo de Filipe o Belo, rei da França, contra o papa Bonifácio VIII (1303). Depois de obter o título de magister theologiae da própria Universidade de Paris, Scotus voltou a ministrar ali aulas de teologia entre 1305 e 1306. Em 1307, foi transferido para Colônia (Alemanha), vindo a falecer improvisa e prematuramente no dia 8 de novembro de 1308. Cognominado “Doutor sutil”, Scotus deixou-nos uma substancial produção literária.



Fotos: Túmulo de Duns Scotus - Alemanha - 2012 - Arquivo particular irmão Francisco Eduardo.


QUAL A IMPORTÂNCIA DE SCOTUS?

Scotus vive em um contexto desafiador e, ao mesmo tempo, extremamente fecundo. O século XIII, no qual também viveram Tomás de Aquino e Boaventura, é atravessado por duas trajetórias filosófico-teológicas bem definidas: agostiniano-boaventuriana e aristotélico-tomista. E uma única matriz polêmica a provocá-las e animá-las: o ingresso das obras de Aristóteles na universidade de Paris. Nesse contexto, Scotus assume uma postura crítica face aos pressupostos e às principais posições defendidas por ambas as escolas, revelando-se como um pensador original.Destaca-se pela fina acribia em bem discernir, o que lhe possibilitou dissipar inúmeras confusões e esmerar-se na especulação acerca das questões filosóficas e dos mistérios da fé. O Doutor sutil se caracteriza, ainda, por um raciocínio deveras singular capaz de, num cerrado diálogo com seus interlocutores, desconstruir seus argumentos e forjar conceitos e linguagem novos cada vez mais precisos e inclusivos. Com Scotus, talvez o pensamento cristão tenha atingido o mais alto vértice da especulação.

SCOTUS É AINDA ATUAL?

Scotus é filho daquele período plasticamente descrito pelo grande historiador Huizinga como “outono da Idade Média”. Fruto maduro daquela fecunda estação, ele sorveu no melhor dos modos a mais genuína seiva que corria pelos veios mais profundos dos sulcos de então, situando-se, para todos os efeitos, entre a Idade Média e a Modernidade. O “nosso tempo” parece marcado pela experiência da dissolução dos grandes sistemas, pela deslegitimação das grandes narrativas, pelo desencanto diante dos grandes projetos construídos sobre a razão, que parecia constituir um sólido alicerce. Chega-se a falar em pós-Modernidade como termo apto a exprimir o total desencanto face aos projetos totalizantes e por demais pretensiosos da Modernidade. Denominador comum a todos os projetos da Modernidade seria propriamente a “epistemologia forte”: racionalista e naturalista. No entanto, poder-se-ia dizer que a Modernidade nasce e se desenvolve num viés oposto àquele inaugurado e proposto por Scotus, em fins do século XIII e inícios do século XIV. Talvez seja essa a razão do crescente interesse, perceptível em nossos dias, por Scotus e seu pensamento.

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