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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O início da atividade de pregador


Santo Antônio. Girolamo Romanino [1484-1562], pintor italiano

Deixamos frei Antônio naquele lugar solitário de Monte Paulo onde, com contato com uma natureza exuberante e pródiga, dedicava-se à oração, à contemplação juntamente com os cuidados da horta, do jardim e da limpeza da casa.  De manhã celebrava a Missa com os frades.  À tarde sempre explicava-lhes com simplicidade trechos da Sagrada Escritura.  Era uma vida que lhe fizera deixar para trás muitas saudades (Portugal!), muitas tentações (África!), muitas dúvidas (Assis!).  Sua alma sentia-se mais tranquila.  Parecia-lhe ter encontrado, pelo menos em parte, mais segurança na vocação. Deus, porém, através dos caminhos desta vida, sempre aponta caminhos novos, inesperados. E foi o que aconteceu com frei Antônio.  Mais uma vez muda-se o destino de sua vida.

Forlí

Esta cidade ficou marcada para sempre na vida de Frei Antônio.  Eis porquê:
Corria o ano de 1222.  Na catedral estava para se realizar a ordenação sacerdotal de vários jovens diáconos. A Catedral estava lotada de fiéis. Padres e irmãos tinham vindo de todas as partes para participarem daquele evento tão importante para a vida da diocese.
Tinham ido também os frades do conventinho de Monte Paulo e entre eles, é claro, Frei Antônio. Quando todo mundo estava se preparando na sacristia (bispo, padres, coroinhas) notou-se a ausência do pregador escolhido há tempos para proferir o sermão durante a celebração.  O mestre de cerimônias viu-se confuso diante daquele imprevisto e começou a pedir a um, a outro, mas todos se esquivavam apresentando alguma desculpa. Estava presente também frei Graciano, o superior provincial dos Franciscanos. A certo momento frei Graciano troca algumas palavras com o mestre das cerimônias, sempre olhando para Frei Antônio, que estava a uns seis passos de distância.
_ “Aí vem chumbo grosso”, pensou consigo mesmo Frei Antônio.
Dito e feito.
Eis Frei Graciano pedindo-lhe que fizesse o sermão, Frei Antônio recusou-se de todos os modos.  Seus colegas de convento, vendo aquela cena, até imaginavam com uma certa dose de benigna ironia aquele fradezinho, embora sacerdote, varredor de cozinha, encarregado da horta, etc., etc., de repente subir o púlpito da catedral de Forlí.  Até que seria interessante! A um certo ponto da conversa, vendo que todos os argumentos eram impotentes para convencê-lo, frei Graciano disse:
_ Frei Antônio, você é sacerdote.  Por isso deve saber alguma coisa da Sagrada Escritura.  Em nome da obediência, eu ordeno que faça o sermão.  Diga o que Deus lhe inspirar!
Frei Antônio não teve como dizer não, inclinando respeitosamente a cabeça.  Enquanto isso, a procissão já ia se movimentando em direção à catedral, acompanhada pelo som solene do órgão e do canto do coral: “Eis o grande sacerdote”.  Na hora da homilia, frei Antônio subiu ao púlpito e começou a falar sobre aquelas palavras de São Paulo: “Cristo se fez obediente até a morte e a morte na cruz” (Fil. 2,8). Suas palavras, em italiano popular, a princípio vagarosas, pesadas, eram dirigidas ao povo que lotava a igreja naquela ocasião.  Aos poucos ele vai sentindo firmeza, entusiasmo e se inflama.  Sua comunicação é direta.  Toca o coração daquela gente simples e humilde que o escuta atentamente e recebe a mensagem de força, de esperança e de coragem de viver, naqueles tempos difíceis em que os ricos exploravam os pobres reduzindo-os à escravidão e à miséria.  Contra os pecados dos poderosos que oprimiam o povo, a palavra de frei Antônio é dura, clara e incisiva convidando-os à conversão para uma vida de justiça e de dignidade.  De repente frei Antônio muda de língua e começa a falar em latim (e que latim!) dirigindo-se ao bispo ordenante, aos padres presentes e aos jovens clérigos que estão prestes a serem ordenados padres.  Cita longos trechos da Bíblia, Antigo e Novo Testamentos, interpreta as passagens das Sagradas Escrituras de uma maneira simples e ao mesmo tempo profunda fazendo comparações com fatos da vida de cada dia.  Revela assim sua capacidade de reflexão a partir de um conhecimento profundo da Palavra divina e da alma humana.  Quem ler os “Sermões” de Santo Antônio, até hoje, não deixa de admirar essa qualidade do Santo.
Quando frei Antônio terminou o serão e desceu do púlpito, muitos olhos de fades, alguns amarejados de lágrimas e todos cheios de estupefação, seguiam-no com emoção e admiração.  Nunca tinham ouvido palavras tão bonitas, profundas e transmissoras de algo tão diferente para a vida cristã.  Até o bispo, como que petrificado no trono, só com dificuldades conseguiu movimentar-se para continuar as cerimônias.  O superior dos frades dominicanos, célebres por suas pregações, aproximou-se de frei Graciano, superior dos franciscanos e sussurrou-lhe aos ouvidos:
- “Onde foi que vocês acharam esta arca de sabedoria”? Certamente o Espírito Santo é que falou nele.
Frei Graciano – que também tinha sido colhido de surpresa – com um certo ar de satisfação, respondeu:
- Eh! Esse é o frei Antônio... Frei Antônio de Lisboa.  Ele veio de Portugal.  É um pregador e tanto!  O Sr. Está vendo? Os frades menores também tem gente boa em Bíblia...
Mas dentro de si, frei Graciano cogitava:
-Puxa vida! E eu pensava que frei Antônio era bem mais capaz de lavar pratos do que ensinar as Sagradas Escrituras...
Terminada a missa, ao mesmo tempo em que fiéis e clero cumprimentavam os recém-ordenados sacerdotes, todos queriam ver, conhecer, saber quem era aquele frade que tinha feito o sermão.
Frei Antônio mal e mal consegue responder às perguntas, sorrir para uns, acariciar uma criança.  Todos querem conversar com ele ou ao menos tocar seu hábito franciscano, considerando-o já uma espécie de santo.
Até os frades, seus colegas de Monte Paulo, olham aquela cena maravilhados e incapazes de compreender como é que, em mais de um ano, não tinham percebido o tesouro que tinham em seu meio.  Até parecia-lhes estar vendo uma outra pessoa.  O próprio bispo se aproxima de frei Antônio, cumprimenta-o apertando-lhe a mão e dizendo:
- Parabéns! Que você uma sempre uma grande humildade à grande sabedoria que demonstrou hoje.
Frei Antônio jamais se esqueceu dessas palavras.  Como também daquelas outras de Frei Francisco de Assis, lá naquela grande reunião chamada Capítulo das Esteiras, das quais estas pareciam um eco: “Anunciem aos fiéis os vícios e as virtudes com palavras simples e breves e tenham sempre em estima e acima de tudo o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar”.
Pouco a pouco todos voltam pra casa.  Também frei Antônio, para o querido conventinho de Monte Paulo.  Lá os colegas querem substituí-lo nos serviços caseiros da limpeza e da horta.  Frei Antônio recusa terminantemente.  E assim continua sua vida como antes.
Como antes?
Esse era seu pensamento.  Mas já pressentira, pelas conversas ouvidas, que algo diferente iria acontecer-lhe.  Não deu outra.  Um dia, perto do meio-dia, chega ao convento frei Graciano.  Almoçam juntos.  Após a refeição, o superior convida-o a um passeio por entre o bosque para uma conversa.  Frei Antônio só escuta:
- Olhe, frei Antônio, eu fiquei muito bem impressionado com a sua obediência e o seu sermão lá naquela ordenação sacerdotal de Forlí.  Tenho até que pedir-lhe desculpas, porque eu o imaginava não muito culto e o coloquei aqui em monte Paulo para celebrar a missa, já que os irmãos insistiam neste sentido há muito tempo.  Estou extremamente feliz por saber que você se dedicou Sagradas Escrituras.  Confesso que o sermão de Forlí foi para mim uma grata surpresa...
Frei Antônio escutava.  De repente um esquilo passou rápido e sumiu no arvoredo distraindo-lhes um pouco a atenção, mas fazendo surgir-lhes nos lábios um leve sorriso de amor à natureza.
E frei Graciano continuou:
- Agora tenho que dizer-lhe uma coisa, frei Antônio.  Você terá que deixar este silêncio de Monte Paulo...
A estas palavras, frei Antônio teve um estremecimento e sua vista se obscureceu.  Seus ouvidos, num eco contínuo começaram a ser martelados pelo som do verbo deixar... deixar... deixar! Mas foi um instante apenas.  Logo lhe soaram claras as palavras de frei Graciano que acrescentou:
- Você vai ter que deixar Monte Paulo para anunciar o Evangelho.  O povo está sedento da Palavra de Deus.  Precisa de alguém que lhe aponte o bom caminho.  Há muita gente também levando o nosso povo para o erro, para as heresias: crianças, jovens e adultos.  E é preciso alguém que lhes pregue a Palavra do Senhor.  E você sabe pregar, conhece teologia.  Então?!?
E fez-se silêncio.  Os dois frades continuaram caminhando, meditando por entre a sombra gostosa dos verdes pinheiros da montanha.
Mais uma vez frei Graciano toma a iniciativa:
- Olhe, frei Antônio, hoje eu estava lendo o Evangelho de MT 5,14: “Vocês são a luz para o mundo todo.  Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte.  Ninguém acende uma lamparina para colocar debaixo de uma vasilha.  Ao contrário, ela é colocada no lugar próprio para que ilumine todos os que estão na casa.  Assim também a luz de vocês deve brilhar para que os outros vejam as coisas boas que vocês fazem e louvem o Pai que está no céu”.  Penso que estas palavras iluminam a missão que quero dar para você, isto é, a pregação.  Chegou para você a hora de iluminar com a luz de Deus os passos do nosso povo. Então você vai com a minha bênção por toda esta região da Romanha, e toda Itália.  E pregue sempre e a todos a Palavra de Deus.
Após estas palavras, frei Graciano pára e, frente a frente com frei Antônio, lhe pergunta:
- E então, frei Antônio, aceita esta missão?
Finalmente frei Antônio abre a boca e diz com convicção:
- Se esta é a vontade de Deus, estou pronto.  Estou aqui para o que der e vier.
E, como era costume naquela época, ajoelha-se diante do superior com o cordão franciscano no pescoço.  Frei Graciano o faz levantar-se e dia, ciente da história da vida de frei Antônio:
- Ofereça sua cabeça e seu pescoço não à espada do carnífice, mas sim à Palavra de Deus pelos caminhos do mundo.  Será bem mais que um martírio.
Os dois se abraçam e voltam ao convento.
Dias mais tarde, frei Antônio se despede dos irmãos e desce o caminho estreito e tortuoso de Monte Paulo rumo à planície da Romanha.  Nos corações dos irmãos franciscanos resta uma saudade e um desejo.  Saudade por terem convivido com um Santo.  Desejo que aqueles lábios, por tanto tempo fechados, se abram para anunciar a Boa Nova do Evangelho num mundo marcadamente hostil.  Boa notícia da verdade, da justiça, da dignidade, da fraternidade.

Santo Antônio, pregador da palavra de Deus

  
Em Forlí, Itália, Santo Antônio foi convidado a dirigir sua palavra ao povo reunido na Igreja para uma Missa de ordenação sacerdotal.
Foi nesta ocasião que ele revelou seu extraordinário carisma de pregador popular.  Daí pra a frente nada mais parou seu entusiasmo missionário.  Um amplo campo de atividades estava se abrindo.
O conventinho de Monte Paulo ficou-lhe às costas.  Estendia-se agora diante de Frei Antônio o imenso campo de um povo da região da Romanha, da Itália e, mais tarde, da França, um povo tão sedento da Palavra de Deus quanto ignorante e continuamente confundido pelos pregadores heréticos da época.
Frei Antônio tinha recebido do ministro provincial a incumbência da pregação.  Normalmente o clero da época era totalmente omisso quanto a esse ministério.  E eram muitas as heresias, isto é, os erros de doutrina, de ensinamento e de comportamento com relação à Igreja católica, a Jesus Cristo, à Eucaristia, etc. E aí, os lábios de Santo Antônio, há tempos fechados, se abriram para anunciar por toda parte a boa nova do Evangelho.  Passava por cidades e castelos, vilas e campos espalhando por toda a parte a semente da Palavra de Deus. Mais do que nunca lhe foi útil a sua grande e profunda cultura teológica, mas, sobretudo o que mais lhe valeu foi sua incansável bondade para com as pessoas e a sua grande fé na missão que Deus lhe tinha reservado.
Santo Antônio Vamos conhecer a vida de um grande Santo  
Geraldo Monteiro
Giuseppino De Roma
Editora Mensageiro de Santo Antônio – 9ª edição - Janeiro de 2006


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